Editorial

Salvini, o vírus no centro da Europa

A chegada ao poder das extremas-direitas — e temos França e Alemanha sob ameaça forte — é o atestado da incapacidade da União de fazer com que os Estados-membros subscrevam os valores matriciais que, por estes dias, parecem estar só no papel.

Matteo Salvini
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Reuters/REMO CASILLI

Matteo Salvini está à beira de se tornar primeiro-ministro da Itália e conseguir “os plenos poderes” que pediu. É evidente que o até agora ministro do Interior, presidente da Liga, já tinha um enorme poder — mas o cargo de primeiro-ministro ainda era do movimento Cinco Estrelas, Conte, que não é de extrema-direita.

A ruptura de Salvini, cujo partido cavalga nas sondagens, vem tornar ainda mais perigoso o quadro político europeu, já de si bastante assustador e com reminiscências de um século XX quase esquecido que a história presente nos obriga forçosamente a revisitar. Como disse Fernando Rosas numa entrevista recente que deu ao PÚBLICO, o futuro “será outra coisa, mas não será fascismo”. Independentemente do peso do nome “fascismo”, essa outra coisa que se vai impondo em vários países europeus (Salvini é, na Europa Ocidental, o primeiro que chegará, tudo o indica, a primeiro-ministro) desperta os piores demónios. Basta ver que Salvini se refere aos refugiados como os seus antepassados alemães, italianos e em outros países se referiam aos judeus. De certa forma, o grito “voltem para a vossa terra” — que recentemente Trump, outro fenómeno da mesma estirpe, atirou às quatro congressistas americanas não brancas, entre elas, Alexandria Ocasio-Cortez — é excessivamente semelhante àquilo que ouviam os judeus um pouco por toda a Europa, e na América, durante boa parte do século XX.

O crescimento da extrema-direita é uma prova do imenso falhanço da União Europeia. Itália, uma das democracias fundadoras da então Comunidade Económica Europeia — com a Alemanha Ocidental, França, Bélgica, Holanda e Luxemburgo —, é o primeiro país a cair totalmente nas mãos do ódio, contra o qual, para lá das razões de ordem económica, a comunidade europeia foi formada. Quem sonhou um dia com os Estados Unidos da Europa (e foram muitos europeus, incluindo Churchill, o primeiro a cunhar a expressão) deve estar por estes dias convencido da sua total impotência. A chegada ao poder das extremas-direitas — e temos França e Alemanha sob ameaça forte — é o atestado da incapacidade da União de fazer com que os Estados-membros subscrevam os valores matriciais que, por estes dias, parecem estar só no papel.

Perante esta emergência, os dirigentes europeus não sabem exactamente o que fazer. E, como num título de livro que relata as vésperas da I Guerra Mundial, parecem sonâmbulos a lidar com uma situação explosiva.