As mulheres russas encontraram a graça na era do #MeToo

Yulia Akhmedova é a primeira russa a ter a sua própria digressão de stand-up , intitulada Assédio. Mas entre o seu público só um terço sabe o que é assédio sexual e ainda menos pessoas sabem do caso Weinstein. No Outono, estreia-se na TV um programa de mulheres humoristas.

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Sob a ideologia tradicionalista do Presidente Vladimir Putin, os direitos das mulheres russas estão a ser esmagados como nunca antes foram Mikhail Tereshchenko/ getty images

As mulheres falaram de forma divertida com o público sobre menopausa, genitais femininos e ser solteira na Rússia moderna. Até houve uma piada sobre matar maridos. A audiência — sobretudo de mulheres jovens — percebeu a graça à primeira. Isto é comédia stand-up russa, edição #MeToo.

Primeiro devagarinho, mas agora em quantidades cada vez maiores, as comediantes russas estão a subir ao palco para desafiar o statu quo. Incluem no seu humor reflexões sérias sobre a forma como os seus conterrâneos controlam o poder, tanto no Kremlin quanto sobre as suas vidas pessoais.

PÚBLICO -
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Yulia Akhmedova, de 36 anos, terminou a sua digressão intitulada Assédio, a primeira "tournée" feminina de "stand-up" a circular pela Rússia dr

De muitas formas, a Rússia continua um passo atrás na forma como é definido o feminismo em partes do Ocidente e afins. O comunismo deu às mulheres da era soviética liberdades-chave décadas antes de elas terem chegado às suas irmãs ocidentais — do direito ao voto até ao aborto legal e à licença de maternidade —, mas o sexismo e os estereótipos de género antiquados prevalecem no país. A Rússia não é caso único. O que é diferente é que o tema raramente era tema para a comédia na Rússia.

“Na Rússia, as mulheres têm sempre a culpa e os homens são inocentes”, diz Yulia Akhmedova, de 36 anos, que acabou de terminar a sua digressão intitulada Assédio, que foi a primeira tournée feminina de stand-up a circular pela Rússia. Em comparação com a tradição ocidental de comédia stand-up, o fenómeno é relativamente novo na Rússia. O stand-up começou em meados dos anos 2000, com actuações exclusivamente masculinas em pequenos bares. Os programas de televisão dedicados ao formato surgiram uma década depois.

Mas a entrada recente das mulheres no mercado, e a sua rápida ascensão ao estrelato, tornou o stand-up num espaço onde as mulheres russas se podem queixar, comiserar e lidar com a guerra dos sexos.

Akhmedova foi uma de 56 mulheres que participaram no Festival de Stand-Up de São Petersburgo em Junho. Contabilizaram um quinto de todos os comediantes presentes e actuaram diariamente perante 20 mil visitantes em bares e salas de espectáculos que assistiram a números repletos de piadas sobre corrupção no governo, a afluência de turistas chineses ou relações. O festival vai no seu sexto ano de existência.

Arte no mainstream

O facto de o stand-up ser um espectáculo descontraído e que pede apenas vestuário casual tem um apelo particular para uma geração de mulheres russas ansiosas por acolher os ideais feministas — um termo que até há pouco tempo era tratado com desprezo pela maioria das mulheres russas. 

Para Viktoria Skladchikova, uma ex-empregada fabril de 29 anos da Sibéria, o desenvolvimento do stand-up russo assemelha-se ao que era esse meio nos EUA na década de 1960. “Ainda há o estereótipo de que as mulheres não têm piada”, diz. Skladchikova actua regularmente no circuito de clubes de stand-up de Moscovo e diz que se contorce quando os apresentadores encorajam o público a “apoiar as raparigas”. “O público não devia ter pena de nós. Não devia haver divisão de género. Felizmente as mulheres fazem stand-up e provam que o humor feminino existe.”

Esta arte também está a chegar ao mainstream. No Outono estreia-se no TNT, um dos canais televisivos mais vistos da Rússia, um programa só de comédia stand-up feminina.

É o primeiro programa do género na Rússia e vai ter como estrelas comediantes que actuam nas sessões open-mic [em que qualquer pessoa, amador ou profissional, pode subir ao palco] do circuito exclusivamente feminino e sobretudo underground que surgiu nos últimos anos em Moscovo e São Petersburgo. O programa no feminino é a sequela da versão quase exclusivamente masculina que se estreou no TNT em 2013 e que teve um sucesso estrondoso.

Durante a digressão Assédio, que levou Akhmedova a 25 cidades e que terminou em Maio, ela falava de forma franca sobre assédio sexual ou sobre ter sofrido de depressão, temas laterais no espaço social russo. As atribulações das relações amorosas sendo comediante do sexo feminino também são uma constante no seu reportório.

“Na nossa sociedade, se não se é casada e com filhos aos 30 anos, és uma falhada. As mulheres agradecem-me por mostrar que há vida para além dos 35 anos e isto faz-me feliz”, diz. Akhmedova começava cada espectáculo pedindo ao público para aplaudir se souberem o que é assédio. Em média, só um terço da audiência o fazia. Depois perguntava se sabiam do escândalo Harvey Weinstein que eclodiu há dois anos, iniciando o movimento global #MeToo. Ainda se ouviam menos aplausos.

Sob a ideologia tradicionalista do Presidente Vladimir Putin, os direitos das mulheres russas estão a ser esmagados como nunca antes foram. O país está a lidar com a descriminalização parcial da violência que há dois anos foi instituída por uma lei assinada por Putin. Agora, as expressões públicas de apoio às mulheres que a legislação deixa em risco são cada vez mais comuns. 

Ainda que numa fase embrionária, a Rússia está a experienciar a sua própria versão de um momento #MeToo depois de terem surgido acusações de assédio sexual contra um deputado de topo por parte de uma conhecida jornalista. Mas o progresso é lento. Quando o comediante norte-americano Louis C.K. admitiu ter-se masturbado frente a outras humoristas sem a sua permissão, os colegas homens de Akhmedova não percebiam qual era o problema. “Na Rússia a única coisa que choca é a violação. E ele não violou ninguém portanto não fazia mal”, explica. 

Por um lado, as mulheres consideram Akhmedova inspiradora. Por outro, a humorista tem mais dificuldades a tentar relacionar-se com os homens do seu público. Na cidade de Yekaterinburg, na região dos Urais, alguns homens saíram do seu espectáculo a meio. Noutras cidades, os homens abordavam-na após o final para pedir uma selfie. “Agarravam-me os pulsos e diziam ‘Espero que isto não seja considerado assédio’ e depois riam-se.”

Exclusivo PÚBLICO/ The Washington Post