Recuo e divisão: serviços mínimos agitaram primeira manhã de greve

“Vamos deixar de cumprir os serviços mínimos”, disse Pedro Pardal Henriques, porta-voz do Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas. Duas horas depois recuava: “Para já”, os motoristas continuam a “trabalhar e a cumprir serviços mínimos”.

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As primeiras horas de greve, em Matosinhos Nelson Garrido

A greve dos motoristas de matérias perigosas arrancou nesta segunda-feira e, durante as primeiras horas de greve, o Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) anunciava que os trabalhadores deixariam de cumprir serviços mínimos – apenas para, pouco mais de duas horas depois, recuar nessa intenção. Pelo meio, ao PÚBLICO, o presidente de outro sindicato envolvido nesta greve disse que os seus associados iriam cumprir os serviços mínimos.

A frase marcou as primeiras horas da greve. “Vamos deixar de cumprir os serviços mínimos”, disse, peremptório, Pedro Pardal Henriques, porta-voz e advogado do Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas, pelas 8h30. Em declarações aos jornalistas em Aveiras de Cima, Pardal Henriques denunciou as pressões a que os trabalhadores a cumprir serviços mínimos estão sujeitos: estão a ser “escoltados por uma força policial como nunca se viu” para “continuarem a trabalhar”. “Já estava tudo preparado para que os serviços mínimos fossem 100%”, afirma. 

“A Antram [Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias] e as empresas patrocinadas pelo Governo estão a brincar com os trabalhadores e não podemos aceitar isso”, justificou o advogado. 

Questionado pelos jornalistas, o porta-voz do Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas afastou um cenário de fim de greve: “Vai avançar a requisição civil.” “Acho que [a requisição civil] já avançou: quando estas pessoas são subornadas e entram aqui com forças de segurança, quando ninguém nos deixa falar com estas pessoas, estes serviços [mínimos] estão a ser garantidos pelo Governo desde a primeira hora.”

Divisão entre sindicatos e o recuo de Pardal

Depois das declarações de Pedro Pardal Henriques, o Sindicato Independente dos Motoristas de Mercadorias (SIMM) anunciou ao PÚBLICO que continuaria a cumprir os serviços mínimos. “Sempre dissemos que iríamos cumprir. Em relação à decisão do SNMMP, é uma decisão que a eles diz respeito, não vamos decidir por eles nem eles vão decidir por nós”, disse o presidente Jorge Cordeiro, no centro de distribuição dos hipermercados Sonae (dona do PÚBLICO), na Maia.

Em declarações à agência Lusa, Jorge Cordeiro garantiu que vai cumprir os serviços mínimos, apesar de “ainda não saberem quais são” porque as empresas não os comunicaram.

Pelas 11h, Pedro Pardal Henriques recuava na intenção de interromper os serviços mínimos e, questionado pelos jornalistas, afirmou que “para já” os motoristas continuam a “trabalhar e a cumprir serviços mínimos”.

Falando aos jornalistas pela segunda vez desde as 8h da manhã (hora marcada para a saída dos primeiros camiões-cisterna), o porta-voz do Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas reforçou que os trabalhadores “ficam revoltadas porque estão a ser limitadas no seu direito à greve” e que espera que “o primeiro-ministro possa tomar providências para que isto não volte a acontecer”.

Em declarações aos meios de comunicação, depois de uma reunião com a Protecção Civil, António Costa afastou a hipótese de decretar requisição civil uma vez que os serviços mínimos estão a ser cumpridos: “A greve é legítima e foi necessário decretar serviços mínimos, como os que estão a ser cumpridos”, disse o primeiro-ministro, na sede da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil depois de uma reunião de avaliação da situação.

“O melhor que podemos desejar é que, chegados a este momento, ambas as partes [ANTRAM e sindicatos] aproveitem a ocasião para as negociações que têm a fazer”, acrescentou António Costa. “O nosso desejo é não termos de fazer mais nada do que já foi feito.”

Os motoristas cumprem nesta segunda-feira o primeiro dia de uma greve marcada por tempo indeterminado e com o objectivo de reivindicar junto da Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (Antram) o cumprimento do acordo assinado em Maio, que prevê uma progressão salarial.

O Governo decretou serviços mínimos entre 50% e 100% e declarou crise energética, que implica “medidas excepcionais” para minimizar os efeitos da paralisação e garantir o abastecimento de serviços essenciais como forças de segurança e emergência médica.