Crónica

Sem lenço, sem documento

O lenço que uma delas bordava, de um azul muito claro, acabou nas mãos do forasteiro. Enquanto os dedos dele sentiam o tecido, ela retirou de um saco de plástico outro pedaço de pano.

Não se via fim à praia com sombras a ondular na areia escaldante, solo agreste a contrastar com o mar azul que refrescava pacientemente o manto branco. Uma paisagem inalterada até se desenhar nela um riacho de água doce que se arrastava até à areia. Antes de fazer a última corrida para se misturar com o mar, a água descansava brevemente numa minúscula bacia protegida pela sombra ténue de árvores esquálidas com ramos magros e ressequidos.

Quatro pés refrescavam-se na água. Duas mulheres esperavam sem saber quando acabaria a espera. Urubus saltitavam na areia, bicando pedaços de coisas inertes. Não era comida, mas que haviam de fazer os urubus senão bicar em busca da sorte? Sabiam lá eles — talvez um pedaço de plástico se transformasse em matéria orgânica digerível. Sabiam lá elas — com os pés mergulhados na água, orlavam de lã muito fina pequenos lenços de tecido.

Não viviam na localidade, não tinham telha que as protegesse, não estavam em trânsito dali para lugar algum. Estavam naquele ermo à espera de encontrar terra que pudessem frutificar, terra que fosse sua. Quando isso acontecesse, deixariam de esperar assim. Continuariam a tricotar, mas esse gesto mecânico não seria inutilidade de uma vida interrompida.

O lenço que uma delas bordava, de um azul muito claro, acabou nas mãos do forasteiro. Enquanto os dedos dele sentiam o tecido, ela retirou de um saco de plástico outro pedaço de pano. Recomeçou a bordar e chapinhou lentamente os pés na água, enquanto falava de caminhadas de acampamento improvisado para acampamento improvisado, e eram sempre iguais os acampamentos, de deserto em beira da estrada com mar por perto ao mesmo deserto em beira da estrada, este sem mar à vista. Falou de filhos e de calor sufocante, falou de pessoas que teimam em impedir outras pessoas de serem pessoas como elas são. Continuou a bordar até ficar apenas o som das agulhas a chocar uma com a outra, dos urubus a bicar o chão na areia ondulante, do mar tão paciente quanto as mulheres que continuavam a esperar.

A muitos quilómetros de distância, na vastidão do interior daquele Nordeste, um homem de calções gastos, carnes secas e tronco nu, empoleirava-se na parede do sulco aberto entre a terra para desenhar uma estrada por onde passavam camiões e motas envolvidas em poeira. Tinha o sonho de viajar até ao outro lado do oceano para tentar outra vida que não aquela de cortar a cana-de-açúcar alinhada compacta até perder de vista, imensidão na qual ele era um ponto minúsculo, quase invisível, entre um gigantesco corpo ocre e verde.

“Porque não vai?”, perguntou-lhe o forasteiro. O homem olhou-o com piedade e, pacientemente, explicou que teria de trabalhar duas décadas, poupando tudo o que ganhava sem gastar um centavo, só para conseguir entrar num avião que o levasse. Além disso, já estava velho. Não é que lhe faltasse energia, mas já não lhe sobrava tempo para programar a tão longo prazo. Virou-se e continuou a lançar a catana sobre as canas. Um ponto minúsculo, quase invisível, a lutar contra aquele imenso corpo ocre e verde que o engolia.

Incongruentes, chegaram com o vento versos embalados em melodia doce e feliz. “Sem lenço, sem documento/ Nada no bolso ou nas mãos/ Eu quero seguir vivendo, amor/ Eu vou.” Soa a sonho antigo a música viva de Caetano. As mulheres esperam a vida que não chega. O homem já não vai.