Trump cria atritos com aliados na região do Indo-Pacífico

Apesar de esta região ser considerada prioritária pelos EUA para contrabalançar a influência chinesa, o Presidente norte-americano tem ameaçado os seus aliados com novas taxas comerciais.

Washington ameaçou a Austrália com taxas alfandegárias
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Washington ameaçou a Austrália com taxas alfandegárias Reuters/SARAH SILBIGER

Os Estados Unidos classificam o Indo-Pacífico como espaço de segurança prioritário e garantem tudo fazer para evitar viragens de poder na região. Mas não se vê da parte de Washington empenho em estreitar as alianças. Ao invés, cria atritos com os seus aliados regionais, que não têm alternativa aos EUA para se oporem à ascensão da China.

“Não vemos o [Presidente] Donald Trump fazer nenhum caminho para criar laços económicos e militares com a região”, disse ao PÚBLICO Luís Mah, professor no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e especialista em Assuntos Asiáticos. Opinião partilhada por Raquel Vaz Pinto, investigadora do IPRI-Nova, ao PÚBLICO: “Não vejo uma estratégia coerente do ponto de vista internacional”.

Na nova Estratégia de Segurança Nacional, de 2017, os Estados Unidos substituíram o conceito geopolítico da Ásia Pacífico pelo de Indo-Pacífico, para incluírem o subcontinente indiano na sua região prioritária. Ao mesmo tempo, acusaram Pequim de ser “uma potência revisionista” e de “expandir o seu poder à custa da soberania de outros Estados”, numa referência às disputas territoriais. A nova definição geopolítica tem o objectivo de alargar o foco para impedir o crescimento da influência chinesa – Pequim tem uma base militar no Djibouti, acedendo mais facilmente ao Oceano Índico, e estreitou laços com o Sri Lanka.

“A China procura afastar os EUA da região Indo-Pacífico, expandir o seu modelo económico estatal e reorganizar a região a seu favor”, lê-se no documento.

Ainda que preocupada, Washington parece optar por uma estratégia de confronto económico com os seus aliados e pouco na cooperação militar, exceptuando a possibilidade de destacar mísseis, venda de armamento (como a Taiwan) e exercícios militares anuais, quando não os cancela publicamente sem avisar os aliados. “Os EUA estão mais críticos de países asiáticos acusando-os de beneficiarem muito mais da abertura dos mercados norte-americanos sem abrirem os seus aos EUA”, disse Mah. “Washington parece ter entrado em choque com os seus aliados asiáticos”. E estes entram em choque entre si, como é o caso do Japão e Coreia do Sul por compensações financeiras do tempo da II Guerra Mundial.

A Índia é um aliado de peso no Indo-Pacífico e ainda assim não lhe foi concedido o privilégio de escapar a guerras comerciais com os EUA. No mês passado, viu-se obrigada a responder à imposição de taxas de alfandegárias e, sem querer escalar o confronto nem perder a face, limitou a sua retaliação a 28 produtos norte-americanos. E Austrália também já foi ameaçada, bem como o Japão e Coreia do Sul.

Não é só no comércio que Washington tem pressionado os seus aliados regionais argumentando que beneficiam mais dele que os EUA. Também exige que paguem mais, como é o caso de Tóquio e Seul, pela presença de militares norte-americanos nos seus territórios. “Isto está a criar um certo atrito por, com esta presidência, os seus aliados temerem que os EUA se afastem da região”, à semelhança do receio dos europeuscontinua Mah. Porém, o documento estratégico garante precisamente o contrário.

Mas Washington presta atenção redobrada à Venezuela, Irão e Síria, afastando o seu foco do Indo-Pacífico. “Voltou-se a pôr a tónica na Arábia Saudita e, ao mesmo tempo, há uma vontade de confrontar o Irão para além da questão nuclear”, disse Vaz Pinto. “Obama tinha a noção de que era preferível concentrar os esforços dos EUA na Ásia Pacífico e, mais tarde, no Indo-Pacífico, e que isso implicaria um menor empenho noutras partes do mundo, em particular no Grande Médio Oriente”.

Obama estabeleceu acordos comerciais, entre as quais a Parceria Trans-Atlântica, entretanto recusada por Trump, para criar um bloco económico, e reforçou os laços militares com o Japão, Coreia do Sul e outros aliados. E, ao mesmo tempo, acelerou a retirada militar do Médio Oriente e pressionou os aliados europeus a investirem mais em defesa. Trump no entanto tem outra abordagem e os seus aliados não estão a gostar.