Maduro suspendeu negociações com oposição em protesto contra as sanções dos EUA

Presidente venezuelano justifica decisão com a “agressão continuada” norte-americana e acusa Guaidó de a “celebrar e promover”. ONU assume preocupação com impacto das sanções no acesso dos venezuelanos à saúde e à alimentação.

Pedido de levantamento das sanções ao Presidente Trump, numa manifestação de apoiantes de Maduro, na quarta-feira
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Pedido de levantamento das sanções, ao Presidente Trump, numa manifestação de apoiantes de Maduro, na quarta-feira Reuters/STRINGER

Nicolás Maduro voltou atrás na intenção de enviar emissários à ilha caribenha de Barbados, o palco designado para nova ronda de negociações entre representantes do Governo chavista e de Juan Guaidó, mediadas pela Noruega, tendo em vista a busca de uma solução para a crise venezuelana. A decisão do Presidente da Venezuela foi tomada em protesto contra o mais recente pacote de sanções económicas imposto pelos Estados Unidos – que as Nações Unidas admitem poderem vir a ter um impacto “potencialmente severo” na salvaguarda das necessidades básicas da população.

As conversas entre as equipas dos dois homens que disputam a legitimidade política na Venezuela, desde que o presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se autoproclamou chefe de Estado interino em Janeiro – com o apoio e reconhecimento de mais de 50 países, incluindo Portugal, EUA ou Brasil –, estavam agendadas para quinta-feira e sexta-feira, e eram o primeiro encontro desde as reuniões, infrutíferas, de Maio.

Com a retirada de Maduro, informaram os representantes noruegueses, os contactos mantêm-se, mas o agendamento de nova data para um encontro cara-a-cara dependerá sempre da “vontade das partes”.

“O Presidente Nicolás Maduro Moros decidiu não enviar uma delegação venezuelana (…), por causa da agressão grave e brutal, perpetrada de maneira continuada e astuta pela Administração Trump, contra a Venezuela, e que abrange o bloqueio ilegal das nossas actividades económicas, comerciais e financeiras”, justificou a presidência chavista, num comunicado publicado na quinta-feira.

Juan Guaidó catalogou o recuo de Nicolás Maduro como “uma prova da sua má-fé e falta de seriedade” e insiste na necessidade de se explorarem “todos os mecanismos” para retirar o  “usurpador”​ do poder, já depois de o oficialismo ter denunciado o papel do presidente do Parlamento venezuelano – esvaziado de poder, pelo regime, em 2017 – na implementação da estratégia norte-americana.

“Os venezuelanos observam, com profunda indignação, que o chefe da delegação da oposição, Juan Guaidó, celebra, promove e apoia estas acções lesivas da soberania do nosso país e dos direitos humanos mais elementares dos seus habitantes”, refere o comunicado.

Em causa está a ordem executiva assinada no início da semana por Donald Trump, que impôs o congelamento imediato de todos os activos do Governo de Maduro nos EUA e decretou a proibição de transacções comerciais entre empresas norte-americanas e o executivo venezuelano. Empresas estrangeiras que façam negócios com o regime deixarão também de poder negociar nos EUA.

Medidas impactantes, quanto mais não seja por acrescerem às sanções económicas, que já estavam em vigor, contra mais de 100 pessoas e entidades venezuelanas, incluindo a petrolífera estatal, o Banco Central e o Banco de Desenvolvimento.

Com a Venezuela afogada numa das crises económicas e sociais mais graves da sua História, qualquer restrição económica externa, somada à ineficiência desmedida do actual Governo, pode ter impacto na rotina dos venezuelanos. Pelo menos é esse o receio de Michelle Bachelet, antiga Presidente do Chile e actual Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, que tem publicado relatórios muito críticos da governação de Maduro, mas que confessa estar “profundamente preocupada” com o impacto “potencialmente severo” das sanções autorizadas por Trump.

“Estas sanções são extremamente amplas e não contêm medidas suficientes para mitigar o seu impacto nos sectores mais vulneráveis da população” afirmou Bachelet, também em comunicado. “Temo que venham a ter implicações maiores nos acessos à saúde e à alimentação, particularmente num país onde já existe uma situação grave de escassez de bens essenciais”.

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