Crítica

As músicas do desenho

Na Galeria Sete, em Coimbra, o encontro entre António Olaio e Luís Silveirinha corresponde à reunião de dois ritmos e melodias. Em que o único som que se escuta é do desenho.

A grafite não invade, nervosa, o papel, mas em delicados passos de dança desvela objectos, formas vegetais ou ósseas, por vezes à beira da evanescência: António Olaio
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A grafite não invade, nervosa, o papel, mas em delicados passos de dança desvela objectos, formas vegetais ou ósseas, por vezes à beira da evanescência: António Olaio

Em termos geracionais, é pertinente reunir António Olaio (Sá da Bandeira, Angola, 1963) e Luís Silveirinha (Campo Maior, 1968), mas a notícia de um encontro dos artistas numa exposição não deixa de surpreender. Os percursos e a obra são muito diferentes e, num primeiro vislumbre, não se descortinam grandes afinidades formais. O vídeo, a pintura e a música, exploradas com ironia e humor, são meios habitualmente associados ao primeiro, enquanto o desenho, a guache ou tinta-da-china, tem permitido a Luís Silveirinha inventar um léxico visual de formas, linhas, traços e figuras. Ora, talvez seja precisamente na figuração que os dois artistas encontram um gosto e um fazer comum, partilhável. O lugar em que se cruzam. O projecto expositivo maturou-se com a seguinte proposta de António Olaio: Silveirinha faria um desenho e o ex-Repórter Estrábico (Olaio foi fundador e vocalista da banda coimbrense) responderia com outro desenho. Acrescente-se, também, a existência de um mote originário para o exercício: uma referência difusa a planetas, a universo paralelos, a território indeterminados, coisas-não terrenas. O desenhar começaria aí.