Enric Vives-Rubio/ARQUIVO
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Enric Vives-Rubio/ARQUIVO

Os indígenas estão a perder líderes e território — e esta concentração quer “denunciar as ameaças”

Da Praça Luís de Camões à Graça, nas ruas de Lisboa ouvir-se-ão os gritos de solidariedade de quem se apercebe do perigo longínquo que as comunidades indígenas enfrentam, nomeadamente na América do Sul.

Para dar visibilidade às comunidades indígenas e às ameaças que enfrentam, o recém-criado Fórum Indígena Lisboa marcou para esta sexta-feira, 9 de Agosto, uma concentração com o mote “Território: Nosso Corpo, Nossa Luta”, em Lisboa. “As ameaças são muitas: contaminação de petróleo, minas, barragens, migrações forçadas, assassinatos, tráfico humano, narcotráfico, madeireiros ilegais, interesses económicos”, explica ao P3 a organizadora Joana Canelas, que passou nove meses na Amazónia, em trabalho de campo para a sua tese de doutoramento na Universidade de Kent, em Inglaterra.

A data da concentração foi escolhida por se assinalar, esta sexta-feira, 9 de Agosto, o Dia Internacional dos Povos Indígenas; a concentração está marcada para as 15 horas na Praça Luís de Camões, em Lisboa, e, para já, não está prevista acontecer noutras cidades portuguesas. Esta é a primeira iniciativa do Fórum Indígena Lisboa e conta com a participação de mais uma dúzia de associações, como a SOS Racismo e a Greve Climática Estudantil.

A concentração acontece depois de ter sido noticiado na última segunda-feira, 5 de Agosto, que os povos indígenas são dos mais afectados no que diz respeito a conflitos violentos (muitos deles mortais) por causa de questões ambientais e territoriais. Surge, também, “num quadro de lideranças que têm sido mortas e perseguidas, sobretudo no Brasil”, refere a investigadora. Um desses casos é o do líder indígena Emyra Wajãpi, que foi morto no final de Julho no estado brasileiro do Amapá quando voltava para a sua aldeia, depois de visitar a filha numa povoação vizinha. A comunidade local diz que os responsáveis pela sua morte são os garimpeiros, que o atacaram, esfaquearam e deitaram o corpo ao rio.

Em resposta, o Presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que em situações anteriores disse que os indígenas tinham de se adaptar à maioria, comparando-os a “animais de jardim zoológico”, continuou a dizer que pretendia “legalizar o garimpo”. “Isto cria uma legitimidade para que os garimpeiros invadam, matem e façam aquilo que acharem por bem”, disse na semana passada a antropóloga Susana de Matos Viegas, em entrevista ao PÚBLICO.

A organização do evento diz que o governo de Jair Bolsonaro “espalha sinais de morte por toda a parte”. “A ameaça de Bolsonaro parece-me clara: não só por vias indirectas, como a desflorestação e a perda de territórios indígenas e dos meios de subsistência; mas também de forma mais directa, através dos seus depoimentos e pelas invasões de garimpeiros, que sentem que têm o apoio do Estado”, refere Joana Canelas.

Depois da concentração, haverá concertos no Miradouro da Senhora do Monte, entre as 18h e as 20h, seguindo-se um jantar solidário em que se conversará com o refugiado político do povo indígena Nasa (Colômbia), que agora vive nas Astúrias, sobre a sua experiência e as lutas indígenas na região.

A investigadora Joana Canelas passou nove meses com comunidades indígenas: seis deles na Amazónia Peruana, onde sentiu que existiam sobretudo ameaças relacionadas com a indústria do petróleo, e três meses na Colômbia e no Brasil. “As ameaças a que estas comunidades estão sujeitas diariamente são visíveis. E não só é surpreendente como é chocante”, conta. O tempo passado na Amazónia em 2016 foi a vertente de trabalho de campo para a sua tese de doutoramento em gestão de biodiversidade, com enfoque na integração de comunidades locais na conservação da natureza. No regresso à Europa, tentou trazer “mais visibilidade” para estas comunidades — e é isso que pretende fazer nesta concentração.