O riso de Rodrigo García é um museu estranho

Depois de 13 anos de ausência, o encenador hispano-argentino regressa ao festival Citemor, que o apresentou a Portugal quando ainda era apenas um fenómeno de culto. PS/WAM confirma que trocou a intervenção social pelo humor, “que é uma espécie de esperança”.

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Rodrigo García deixou de acreditar no teatro como forma de intervenção social. Não porque esteja desencantado – isso sempre esteve, confessa –, mas porque encontrou o humor. E essa descoberta distancia agora claramente o seu trabalho da marca que tinha por hábito aplicar em peças anteriores: “Fazia trabalhos mais violentos, mais sérios. Acreditava que a arte podia ter alguma função social. Estou numa altura da minha vida em que já não acredito nisso”, explica o encenador hispano-argentino aos jornalistas, a propósito do seu mais recente trabalho, PS/WAM, que se estreia esta quinta-feira, no 41.º Citemor – Festival de Montemor-o-Velho. Se já nada mais há a fazer pelo público, diz, então que o espectáculo “sirva como experiência estética individual para cada pessoa”.

Piano Sonatas/Wolfgang Amadeus Mozart descodifica a sigla que dá título a este trabalho de García. Mas é o próprio encenador que afirma que as sonatas do compositor austríaco são apenas um pretexto, uma forma de abordar “uma espécie de museu estranho” que convida os espectadores a visitar.

Até sábado, dia 10, sempre às 22h30, em sessões de 70 minutos, PS/WAM ocupa o pavilhão multiusos da Carapinheira, no concelho de Montemor-o-Velho, que se assemelha a um amplo armazém. Sem a imposição de um palco, o espaço será percorrido pelos dois actores e pelos espectadores, contornando vários objectos aparentemente desconexos: ecrãs, um carro sinistrado integralmente coberto de tinta azul pastel, um aquário de dragões barbudos ou cabeças de veado e de javali.

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O multiusos da Carapinheira está mais habituado ser palco de trocas comerciais do que de espectáculos de artes performativas. Mas o aspecto mercantil do espaço é justamente um ponto de contacto entre PS/WAM e os trabalhos que dão corpo à obra de Rodrigo García, que sempre se mostrou comprometido com a crítica da sociedade de consumo. Peças como After Sun (2001), Comprei uma pá no Ikea para cavar a minha tumba (2002) ou Accidens – Matar para Comer (2005), com que o encenador se apresentou no início do milénio no Citemor – quando construiu a sua relação de proximidade com o festival, que o deu a conhecer em Portugal quando era ainda um fenómeno de culto – filiavam-se nessa narrativa de ataque ao capitalismo e às suas armadilhas. Uma das peças mais marcantes desse período, e que lhe valeu reconhecimento internacional, chamava-se, muito apropriadamente, A História de Ronald, o Palhaço do McDonald's (2002): criada para o Citemor, numa co-produção com a a companhia La Carnicería Teatro, que García fundara em Madrid, iria ao Festival d’Avignon no ano seguinte.

Era “uma obra muito clara de crítica ao consumo”, recorda o encenador. “Esse é um momento que já passou para mim, há muito tempo”, acrescenta. De lá para cá, García viu o seu trabalho reconhecido com o Prémio Europa de Teatro – Novas Realidades Teatrais, em 2009, e dirigiu o Centro Dramático Nacional de Montpellier, entre 2013 e 2017.

PS/WAM marca o seu regresso ao Citemor, 13 anos depois da sua última aparição no festival com Autocompaixão e A​proximação à ideia de desconfiança, em 2006. O novo espectáculo, que conta igualmente com a produção do Matadero de Madrid e do Boucherie Théâtre de França, é um trabalho “mais poético, mais confuso”, caracteriza. Mas também mais obscuro.

O seu museu estranho convida ao riso e as pilhas de produtos de mercearia, de bebidas a detergentes, que tanto suportam bustos de inspiração helénica como os dois exemplares de taxidermia, parecem contradizer o discurso de Rodrigo García, quando diz que abandonou a mensagem crítica. Mas teremos de crer nas suas palavras. “É a obra mais que mais difere de todas as que fiz”, garante, desde o posicionamento do público no espaço à relação entre os elementos em palco. Há duas semanas que está a trabalhar na peça em Montemor-o-Velho, depois de outras duas em Madrid.

Se Mozart é um pretexto para PS/WAM, é também um instrumento “para combater a estupidez”. Se uma sinfonia ou uma ópera são produtos de um esforço colectivo, uma sonata “é algo que convida ao recolhimento”, que permite “fazer um exercício de introspecção”. PS/WAM alimenta-se da estupidez, da fantasia, mas também do desencanto. “Desde criança que estou desencantado: com a educação, com os imperativos, com as normas. Mas agora já o encaro com humor, já me posso rir”, afirma Rodrigo García. Se esse desencanto alimentava a violência, agora trabalha-o com o riso, “que também é uma espécie de esperança”.