Crítica

O médico e o santo

Um objecto curioso e honesto que tem a virtude de não se prostrar aos pés do “fenómeno” Sousa Martins, e em vez disso procurar aclará-lo.

Um filme perdido entre o registo de uma estranheza genuína e o salto para um olhar mais analítico: <i>Sousa Martins</i>
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Um filme perdido entre o registo de uma estranheza genuína e o salto para um olhar mais analítico: Sousa Martins

O título leva a crer que se trata de uma biografia do célebre médico português do século XIX, Sousa Martins, mas, como num truque de trompe l’oeil relativamente sagaz, não é bem assim. Passada a primeira vintena de minutos, as questões biográficas ficam praticamente arrumadas e o filme de Justine Lemahieu pode dedicar-se aquela que é a questão que - confessadamente, pelo que diz a voz off - o intriga de facto: a transformação de um clínico, que todas as fontes apontam como brilhante e um pouco excêntrico mas também laico e razoavelmente “positivista”, numa espécie de santo popular oficioso, a quem se atribuem e pedem milagres que extravazam o foro médico para chegar à vida económica e sentimental (ou mesmo a quem se agradece, como se lê no mais bizarro ex-voto mostrado no filme, um alerta atempado para os “perigos da cafeína”).