El Paso e Dayton recebem Trump sem entusiasmo e com desafio

Presidente norte-americano atacou críticos antes da visita aos palcos dos tiroteios do passado fim-de-semana e mostrou-se resignado com o impasse no Congresso: é possível fazer alterações à lei, mas “não há apetite político” para proibir armas semiautomáticas.

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O balão do bebé Trump serviu para fazer um protesto em Dayton, Ohio Bryan Woolston/REUTERS

Houve um tempo em que a visita de um Presidente norte-americano a cidades afectadas por tragédias era importante para o processo de luto das comunidades, mas esse ritual parece ter desaparecido nos anos mais recentes. Dez meses depois de o presidente da câmara de Pittsburgh ter aconselhado o Presidente dos EUA a ficar longe da cidade após o assassínio de 11 pessoas numa sinagoga, alguns habitantes de Dayton, no Ohio, receberam Donald Trump, esta quarta-feira, com apupos e palavras de ordem gritadas e escritas em cartazes: “Faz alguma coisa!”

Donald Trump e a mulher, Melania, chegaram a Dayton a meio da manhã desta quarta-feira (hora local), onde visitaram um hospital no centro da cidade e falaram com alguns dos profissionais de saúde que responderam à chamada do tiroteio da madrugada de domingo, que fez nove mortos. Segue-se, ainda esta quarta-feira, uma visita a El Paso, no Texas, palco de um outro tiroteio, na manhã de sábado, que fez 22 mortos.

À partida para Dayton, ainda nos jardins da Casa Branca, o Presidente norte-americano disse que preferia não se envolver em “rixas políticas”, em resposta às acusações de que o seu discurso político contribui para alimentar um clima racista e anti-imigração nos EUA.

Mas as rixas políticas não ficaram de fora da conversa de Trump com os jornalistas. O Presidente norte-americano acusou o candidato que lidera as sondagens na corrida do Partido Democrata à Casa Branca, Joe Biden, de ser “um tipo bastante incompetente”. E disse que alguns dos seus críticos estão “muito em baixo nas sondagens”.

Horas antes, no Twitter, mandou calar o antigo congressista do Texas e também candidato do Partido Democrata à Casa Branca, Beto O’Rourke: “O Beto (nome falso para sugerir uma ascendência hispânica), que está embaraçado por causa da minha última visita ao Grande Estado do Texas, onde eu o esmaguei, e está ainda mais embaraçado por ter apenas 1% nas sondagens para as primárias do Partido Democrata, devia respeitar as vítimas e as forças de segurança – e ficar calado!”

Biden tem reforçado as críticas a Trump durante a campanha eleitoral no seu partido, e em Julho comparou o Presidente norte-americano a George Wallace, um antigo governador do Alabama e forte defensor da segregação, conhecido por uma proclamação feita durante a sua primeira tomada de posse, em 1963: “Segregação agora, segregação amanhã, segregação para sempre.”

E O’Rourke disse que “não há lugar” para Trump em El Paso: “Ele ajudou a criar aquilo a que assistimos em El Paso no sábado. Ajudou a criar o sofrimento que estamos a sentir neste momento. Esta comunidade precisa de sarar as suas feridas”, disse o antigo congressista.

O suspeito do ataque em El Paso, identificado como Patrick Wood Crusius, de 21 anos, publicou um manifesto anti-imigração no site 8chan onde fala numa “invasão hispânica” nos EUA – um termo usado várias vezes pelo Presidente Trump para se referir à chegada de imigrantes da América Central, em caravana, à fronteira dos EUA com o México.

Congresso sem “apetite” 

Nas declarações aos jornalistas, o Presidente norte-americano disse que não é o seu discurso público que contribui para actos de violência como os do último fim-de-semana, nem o acesso facilitado à compra de armas é o principal problema. “Eu não culpo ninguém”, disse Trump. “Estas pessoas são doentes. Têm perturbações mentais muito fortes, é um problema de saúde mental.”

Nesse sentido, o Presidente norte-americano disse que “não há apetite político” no Senado para proibir a venda, em todo o país, das espingardas semiautomáticas usadas pela maioria dos atiradores em tiroteios com múltiplas vítimas. Em relação à lei das armas, Trump admitiu que o Congresso pode vir a apertar o sistema de controlo que é feito pelos vendedores antes de uma tentativa de compra – por exemplo, estendendo essa exigência a todas as transacções e não apenas às vendas em lojas especializadas.

Para além das leis federais, que se aplicam a todos o país, cada um dos 50 estados tem leis próprias sobre a venda de armas. Alguns, como a Califórnia, têm leis muito restritivas, e outros, como o Mississippi, têm leis mais permissivas – para se contornar a falta de entendimento no Congresso norte-americano, há quem defenda que o caminho é que cada estado reforce as suas próprias leis. Mas à falta de uma lei federal que proíba as compras de armas entre estados, o problema não diminuirá de forma significativa.

Em 2013, na sequência do tiroteio na escola primária de Sandy Hook, que fez 26 mortos, entre os quais 20 crianças de seis e sete anos, o Senado norte-americano não aprovou nenhuma das propostas em discussão para dificultar o acesso às armas. E não se espera que isso aconteça agora, numa altura em que a divisão entre o Partido Democrata e o Partido Republicano é ainda mais pronunciada: são precisos 60 votos para mudar a lei, e o Partido Democrata, tendencialmente mais favorável a alterações do que o Partido Republicano, tem apenas 47 senadores.

Frieza em El Paso

Em El Paso, onde também estava prometida uma manifestação contra a visita de Donald Trump, o presidente da câmara local, Dee Margo, disse que vai “continuar a rebater qualquer declaração imprecisa sobre El Paso”.

“Não permitiremos que ninguém retrate El Paso de uma forma que não seja consistente com a nossa história e com os nossos valores”, disso o responsável eleito pelo Partido Republicano, numa referência indirecta ao Presidente norte-americano.

Em Fevereiro, durante o discurso do estado da União no Congresso, Trump disse que El Paso era uma das cidades mais perigosas do país antes da construção das vedações na fronteira com a vizinha Ciudad Juárez, no México, entre 2008 e 2009.

Mas essa afirmação não é correcta – segundo os dados oficiais, os índices de criminalidade em El Paso têm descido de forma acentuada e sustentada desde meados da década de 1990, e quando as vedações foram construídas estavam já abaixo da média para uma cidade de grandes dimensões. Em Abril deste ano, El Paso foi considerada uma das dez cidades mais seguras do país pela empresa Safewise.