Opinião

Cultura é infra-estrutura

Cognição é fundação. Cultura é infra-estrutura. E isso tem consequências sobre a forma como devemos olhar para qualquer momento político — incluindo o nosso.

O PÚBLICO de ontem trazia um artigo interessante — respigado do Washington Post — acerca de como o telelixo “deu poder a uma vaga de líderes populistas”, como escreve o seu autor, Andrew Van Dam. A partir de um estudo de três economistas italianos (Ruben Durante, Paolo Pinotti e Andrea Tesei) que seguiu os efeitos da introdução gradual dos canais de televisão de Berlusconi durante os anos 1980 e 1990, cidade a cidade, em Itália, os autores chegam à conclusão de que as comunidades que tiveram exposição mais precoce e mais prolongada ao telelixo são também as comunidades que viriam a dar um apoio político mais expressivo às candidaturas partidárias com um discurso mais simplista e polarizador. O artigo menciona também estudos sobre outras geografias, da Indonésia (da autoria do pioneiro deste tipo de investigações, Benjamin Olkon) aos EUA, que reforçam a mesma conclusão geral: “o mínimo denominador comum mediático abriu caminho ao mínimo denominador comum político”. Com o pormenor revelador de não ser necessário haver conteúdo político nas TV para influenciar os comportamentos políticos, pelo contrário: filmes mais básicos ou concursos sem conteúdo têm um efeito ainda mais pronunciado.