Quantos tiroteios com múltiplas vítimas houve este ano nos EUA? Tudo depende das fontes

Para o FBI houve 19, mas a organização Gun Violence Archive contabiliza 253 até esta terça-feira.

Mnaifestação contra o acesso às armas nos EUA
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Mnaifestação contra o acesso às armas nos EUA Reuters/EDUARDO MUNOZ

No sábado passado, horas depois de um atirador ter matado 22 pessoas numa loja da cadeia Walmart na cidade norte-americana de El Paso, no Texas, um tweet com o número de tiroteios com múltiplas vítimas (mass shootings no original em inglês) nos EUA em 2019 foi um dos mais partilhados durante o fim-de-semana. Keith Edwards, um funcionário do conselho legislativo da cidade de Nova Iorque e activista do Partido Democrata, afirma que este ano houve 249 casos nos EUA desde Janeiro, em comparação com três no México e um no Brasil, por exemplo.

O autor do tweet não indica a fonte da informação, mas é provável que seja o grupo sem fins lucrativos Gun Violence Archive, que desde 2013 recolhe e publica os números da violência com armas de fogo nos EUA.

De acordo com a organização, até esta terça-feira foram registados 253 tiroteios com múltiplas vítimas em locais públicos, incluindo os ataques em El Paso e em Dayton, no Ohio, que aconteceu no domingo. O mais recente, segundo o Gun Violence Archive, aconteceu na segunda-feira, em Nova Iorque, e fez quatro feridos.

A confusão sobre os números da violência com armas de fogo nos EUA começa na própria definição de tiroteio com múltiplas vítimas.

Para o Gun Violence Archive, um tiroteio com múltiplas vítimas é qualquer caso com armas de fogo que resulte em pelo menos quatro feridos; mas para os serviços de pesquisa do Congresso norte-americano, é preciso que pelo menos quatro pessoas sejam mortas num único incidente. E para o Departamento de Justiça dos EUA, há um tiroteio quando pelo menos três pessoas são mortas.

Se a contabilidade for feita a partir da definição do Gun Violence Archive, desde Janeiro houve 253 mass shootings nos EUA, que fizeram 272 mortos; se for feita a partir da definição do Congresso, houve 19, num total de 119 mortos.

E a confusão é ainda maior quando se tenta separar os casos – mesmo os que provocam pelo menos quatro mortos – pelas motivações dos atiradores.

Para além de considerar um tiroteio com múltiplas vítimas qualquer caso com quatro ou mais feridos, a metodologia do Gun Violence Archive não faz distinções de contexto – são incluídos na análise casos como os que aconteceram no sábado passado, mas também rixas entre gangues ou entre famílias e vizinhos, por exemplo.

Mas o contexto é importante. Se o objectivo do tweet de Keith Edward é transmitir a ideia de que houve 249 mass shootings EUA, entre Janeiro e Agosto, em que um atirador disparou de forma indiscriminada contra um grupo de pessoas num espaço público, ou numa escola, fazendo pelo menos quatro mortos num ataque preparado com antecedência, os números oficiais não o confirmam.

“Se levarmos as coisas ao extremo, é possível incluir soldados na categoria de ‘assassinos em massa’ com base na participação deles em conflitos armados e em guerras, porque eles praticam actos de violência pública que resultam em mais do que quatro mortes”, diz o investigador norte-americano Adam Lankford, professor de Criminologia na Universidade do Alabama, num artigo publicado em Março no Econ Journal Watch.

“Podemos também acrescentar outros responsáveis por violência contra pessoas, incluindo combatentes paramilitares, membros de milícias e equipas de assalto contra redes de terroristas”, diz o investigador, concluindo que isso “iria distorcer a definição deste crime e pôr em causa o senso comum”.

“Há grandes diferenças na psicologia, no comportamento, no processo de aquisição de armas, nas causas subjacentes e nas estratégias de prevenção que são aplicadas a estes distintos tipos de violência. Estudar ataques da [milícia ugandesa] Exército da Resistência do Senhor não nos ajuda a prevenir o próximo tiroteio como o que aconteceu na Universidade da Virginia, e vice-versa”, afirma Adam Lankford.

Correcção: o termo “assassínios em massa” foi substituído pelo termo “tiroteios com múltiplas vítimas”, mais próximo do original mass shootings já que nem todos os casos deste tipo causam vítimas mortais segundo a definição da organização Gun Violence Archive.