Acusação de “manipulação” à China é passo para mais subidas de taxas

EUA passaram a classificar a China como país “manipulador de divisas”. Os mercados já estão a apostar que o próximo passo será a imposição de taxas alfandegárias ainda mais altas, confirmando a escalada no conflito entre os dois países.

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Reuters/Damir Sagolj

Não demorou muito a resposta dos EUA à descida do iuan para o seu valor mais baixo em mais de 10 anos. A Casa Branca passou a atribuir à China a classificação de “manipulador de divisas”, tornando ainda mais difícil um entendimento entre os dois países e abrindo a porta à imposição de mais taxas alfandegárias.

Donald Trump já tinha falado de manipulação de divisas quando reagiu, na sua conta do Twitter, à evolução da taxa de câmbio do iuan renminbi face ao dólar na segunda-feira. O dólar passou a valer mais de sete iuans, uma barreira considerada importante e que as autoridades chinesas permitiram que fosse ultrapassada pela primeira vez em mais de uma década. O sinal que Pequim deu foi que, em resposta às subidas de taxas alfandegárias realizadas pelos EUA aos seus produtos, está agora disposto a deixar o iuan depreciar-se, tantando assim recuperar a competitividade das suas exportações.

Logo na segunda-feira à noite, as autoridades norte-americanas reagiram, passando a incluir a China na lista de países “manipuladores de divisas”. Desde 1994 que isso não acontecia. Nos últimos anos, as diversas administrações que passaram pela Casa Branca, incluindo a actual, tinham evitado fazê-lo, tentando encorajar o esforço recente (reconhecido internacionalmente) das autoridades chinesas para deixar o iuan variar de acordo com as forças dos mercados. No passado mês de Maio, o Tesouro norte-americano tinha publicado um relatório em que concluía que a China não manipulava a sua divisa.

A ultrapassagem da barreira dos sete iuans por dólar mudou tudo. As autoridades chinesas garantem que tal aconteceu unicamente devido ao efeito que a guerra comercial está a ter na sua economia. E esta terça-feira, já não se registou qualquer depreciação da divisa. Mas do lado dos Estados Unidos, a ideia que existe é que, ao contrário de outras ocasiões, a China optou por não defender a sua divisa, como forma de retaliar contra as medidas dos EUA.

Ao designar a China como “manipuladora de divisas”, a administração Trump abre o caminho para a continuação de uma escalada do conflito comercial com a China, confirmando aqueles que são os principais receios dos investidores nos mercados financeiros. A aposta agora é que, para ser consistente com esta nova classificação, a Casa Branca venha a colocar em prática novas medidas punitivas.

A mais provável é a de impor uma taxa alfandegária de 25% sobre todas as importações provenientes da China. Até agora, apenas uma parte dos produtos chineses que chegavam aos EUA eram taxados nessa dimensão, os restantes iriam passar, a partir de Setembro a ter uma taxa de 10%. Se isso se confirmar, a bola volta a ficar do lado da China, que tem sempre a hipótese de deixar cair mais um pouco a sua divisa.

O que parece certo é que, neste momento, o cenário mais provável é, não a chegada a um entendimento entre os dois países, mas uma escalada do conflito. Até porque o discurso político de ambas as partes está a endurecer a cada dia que passa. O jornal oficial do Partido Comunista chinês acusa, no seu editorial desta terça-feira, os EUA “deliberadamente destruírem a ordem internacional”.

Nos mercados, anuncia-se mais um dia de perdas. As bolsas europeias abriram com perdas situadas entre os 0,2% e os 0,5%, acentuando as variações negativas que se registam desde a passada sexta-feira, tendo entretanto recuperado ligeiramente. Isto, depois de as bolsas norte-americanas terem vivido na segunda-feira a pior sessão do ano. Os investidores têm vindo a refugiar-se em activos considerados mais seguros como o ouro ou as obrigações.