Morreu a escritora Toni Morrison, cronista da América negra e Prémio Nobel da Literatura

Autora de Amada, Song of Solomon ou A Nossa Casa é Onde Está o Coração tinha 88 anos.

,Deus ajude a criança
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reuters

A escritora Toni Morrison morreu na noite de segunda-feira em Nova Iorque, informou a sua editora, a Knopf, num comunicado divulgado esta terça-feira. A autora de Amada ou A Nossa Casa é Onde Está o Coração tinha 88 anos e grande parte da sua obra versava sobre a experiência da comunidade negra nos Estados Unidos, tendo sido distinguida com o Prémio Nobel da Literatura e o Pulitzer, bem como com a Medalha da Liberdade Presidencial dos EUA e a Legião de Honra francesa.

“É com profunda tristeza que partilhamos que, na sequência de uma curta doença, a nossa adorada mãe e avó, Toni Morrison, morreu pacificamente na noite passada rodeada por familiares e amigos”, disse a sua família num comunicado em que recordava o amor da autora pelas palavras: “Considerava a palavra escrita preciosa, fosse a sua, a dos seus alunos ou de outros”. Por sua vez, o seu editor de décadas, Robert Gottlieb, da Knopf, resumiu a sua relação com Toni Morrison assim: “Ela era uma grande mulher e uma grande escritora, e não sei de qual vou ter mais saudades.” 

Toni Morrison nasceu em 1931 em Lorain, no estado de Ohio, com o nome de baptismo Chloe Anthony Wofford, filha de um metalúrgico sindicalista e de uma dona de casa. O pai desdobrou-se em empregos para conseguir sustentar a família de quatro filhos e levar a futura escritora até ao ensino superior. Estudou Humanidades nas universidades de Howard e Cornell e trabalhou como editora. Casou-se com o arquitecto Howard Morrison e teve dois filhos. Começou a escrever nos anos 1960, findo o seu casamento e desiludida com a profissão. Autora de 11 romances, entre os quais Song of Solomon (1977), em 1993 recebeu o Nobel da Literatura, tornando-se assim a primeira mulher negra a ser galardoada com aquele importante prémio e uma das escassas 14 mulheres premiadas até hoje pela Academia Sueca. 

Ao atribuir-lhe o Nobel, a Academia Sueca recordou como Morrison fora, enquanto criança, uma leitora ávida — os seus familiares, na hora da sua morte, descrevem esse apetite pela página como “voraz” — que absorveu as histórias contadas pelo pai, vindas da tradição afro-americana, para as incorporar na sua própria produção literária: “O trabalho de Toni Morrison gira em torno dos afro-americanos; tanto em torno da sua história quanto em torno da sua situação nos nossos tempos. A sua obra retrata frequentemente as circunstâncias e o lado negro da humanidade, mas ainda assim transmite integridade e redenção.”

Vários títulos da obra de Toni Morrison estão traduzidos em português e alguns com mais de uma edição, entre chancelas como a Presença, a D. Quixote ou a Difusão Cultural, desde Amada – Beloved (1989, 1994, 2011, 2018) até Deus Ajude a Criança (2016), passando por Love (2009, 2019), A Nossa Casa é Onde Está o Coração (2015) e A Dádiva (2009). 

The Bluest Eye foi o seu primeiro livro, publicado em 1970, quando a autora vivia com os dois filhos em Syracuse, Nova Iorque, e era já editora sénior da Random House. Levantava-se todos os dias às quatro da manhã para escrever antes que as rotinas do dia envolvendo miúdos e trabalho se instalassem.

Este primeiro romance centra-se em Pecola, uma criança adoptada, vítima de violências várias, que quer ter os olhos azuis como as raparigas brancas e todas as bonecas com que brincou. Em Amada, um dos seus títulos mais aclamados, vencedor do Pulitzer de Ficção em 1988, também há uma mãe, mas desta vez como personagem principal: Margaret, que toma a decisão impossível, trágica, de matar a sua filha bebé para a salvar de uma vida como escrava. “Se dúvidas houvesse sobre o seu estatuto como proeminente romancista americana da sua ou de qualquer outra geração, Amada acabará com elas”, escreveu a romancista Margaret Atwood numa crítica publicada em 1987 no New York Times. "Em poucas palavras, é de pôr os cabelos em pé.” 

Os livros de Morrison estão tão cheios de personagens femininas determinadas e heróicas, embora com falhas, quanto a sua vida se fez de mulheres fortes, capazes de enfrentar adversidades e de superar expectativas. A começar por ela. Poucos esperariam, na América segregada dos anos 1940 em que cresceu, que uma rapariga de um meio pobre — houve alturas em que os pais tiveram de ser apoiados pelos serviços sociais para garantir que havia comida à mesa da família — chegasse onde ela chegou.

Foi o seu espírito combativo, escreveu o diário britânico The Guardian em 2012, que a fez destacar-se. Sempre se sentiu superior, admitiria, mas de uma superioridade que não vinha do dinheiro ou de uma posição social privilegiada, uma superioridade que nascia das suas ideias próprias, da capacidade de falar por si e de se opor àquilo em que não acreditava.

“Tudo o que aconteceu nos primeiros 50 anos da minha vida é deslumbrante e memorável. É extraordinário como o passado é tão claro”, disse ao mesmo jornal, sublinhando em seguida que a sua obra está ligada à sua experiência pessoal — a que começa no facto de ela ser uma mulher negra na América. Morrison nunca se opôs, escreve ainda o Guardian, a que os seus livros tivessem uma leitura sociopolítica, mas sempre lamentou que haja quem os leia apenas como statements e não também, e principalmente, como romances.

Era quando se sentava à secretária, mesmo depois de a morte de um dos filhos a ter deixado praticamente sem palavras, que se sentia mais liberta do resto do mundo: “Sinto-me completamente curiosa e viva e autocontrolada. E quase… magnífica quando escrevo.”

A sua obra, que também tocou a literatura infantil, a dramaturgia, os contos e o ensaio, era admirada pelos críticos, pelos leitores que colocaram os seus livros nos tops de vendas durante semanas a fio, e por estrelas como Marlon Brando que, como recordava um perfil de Morrison na revista New Yorker, telefonava à escritora para lhe ler passagens dos seus romances que considerava espirituosas. Beloved - Amada foi adaptado para o cinema em 1998 por Jonathan Demme, com produção de Oprah Winfrey.

Toni Morrison manteve também uma carreira académica e era professora catedrática na Universidade de Princeton. Leccionou ainda nas universidades de Yale, Howard ou Southern Texas. Era membro da Academia de Artes e Letras dos EUA e recebeu a Medalha da Liberdade Presidencial dos EUA das mãos de Barack Obama, o primeiro Presidente negro dos EUA, cuja candidatura apoiou publicamente em 2008. Uma década antes, a escritora tinha postulado na revista New Yorker que Bill Clinton, então em pleno processo de impeachmentera “o primeiro Presidente negro da América”.​