André Rodrigues

Quase metade dos universitários está no Porto ou em Lisboa: é preciso “fortalecer o interior”

O P3 desafiou cinco jovens a apontar as causas do futuro. Desigualdades no acesso ao ensino, um sistema focado no individualismo e um grande desafio: levar jovens a estudar e a fixarem-se no Interior. Este é o segundo texto de uma série de quatro.

“Porque hão-de os jovens sair de um sítio para onde sabem que vão voltar?” A questão impõe-se quando o tema é prosseguir estudos no superior e escolher uma instituição de ensino no litoral ou no interior de Portugal Continental. No ano lectivo de 2018/2019, mais de metade dos estudantes inscritos enveredaram por uma universidade ou um politécnico no Porto ou em Lisboa — a mesma tendência dos anos anteriores. Mais ainda: estudos mostram que o acesso ao ensino superior é marcado por factores socioeconómicos, como o background financeiro das famílias ou o grau de formação dos pais.

No encontro do P3 com Berta Valente Santos, Fernando Teixeira, João Pedro Costa, Rianne Ruviaro e Rita Regadas, que aconteceu na redacção do PÚBLICO no Porto com o objectivo de identificar as causas do futuro, a educação foi uma preocupação consensual. Desde as dificuldades das “pessoas mais pobres em aceder a educação”, apontadas por Rianne, a um “sistema de ensino focado no individualismo” e nas médias, destacado por Rita, passando por um interior abandonado e sem estímulos à fixação de jovens, vários foram os problemas apontados.

No litoral, em termos de escolas e outras oportunidades, o acesso é muito mais fácil do que no interior”, atirou Rita. A mesma ideia que Mara Nunes, estudante de Medicina na Universidade da Beira Interior (UBI), tinha quando entrou no curso: “Ir para o interior não era a minha opção, inicialmente. Candidatei-me para lá porque sabia que era onde tinha mais probabilidades de conseguir entrar”, conta. Apesar de ter vivido na Guarda até aos 18 anos, sempre acreditou que “no litoral é que se estava bem”. Prestes a entrar no quinto ano do curso, acabou por mudar de ideias e aprendeu a apreciar “a calma” que se vive fora dos grandes centros urbanos — onde também já viveu — e até “não se importa” se acabar por ficar a trabalhar no interior.

“Ao longo das últimas décadas temos visto uma pressão enorme para concentrar a população, a riqueza e as oportunidades numa parte muito pequena do território”, explica Pedro Teixeira, professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto e director do Centro de Investigação de Políticas de Ensino Superior (CIPES). O que faz com que o interior tenha “dificuldade em atrair alunos”. E mesmo que os estudantes se formem numa instituição no interior, quando acabam o curso não se fixam lá “se não tiverem oportunidades de emprego e de qualidade de vida”.

No ano lectivo de 2018/2019, segundo dados do Relatório de Acesso ao Ensino Superior, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, 49% dos inscritos (cerca de 38 mil) no primeiro ano, pela primeira vez, no superior ingressaram numa instituição de ensino (universidade pública, privada ou politécnico) em Lisboa ou no Porto. Os restantes 51% (cerca de 41 mil) foram distribuídos pelo resto do país: universidades como a de Coimbra, de Aveiro ou do Minho são determinantes na captação de alunos fora dos grandes centros urbanos. Segundo dados da Direcção-Geral do Ensino Superior, em 2018 estas três universidades receberam mais de oito mil alunos. 

A localização e o difícil acesso, fruto de uma rede de transportes públicos insatisfatória, são desincentivos ao estudo no interior do país, acredita Fabian Figueiredo, sociólogo e dirigente do Bloco de Esquerda: “Se um estudante residir no Porto e for estudar para Évora, enfrenta um verdadeiro calvário no que toca aos acessos dos transportes públicos.” “Eu estudei em Coimbra e residia em Santa Maria da Feira. Apesar de tudo tinha a Linha do Norte para me deslocar, mas estamos a falar de uma viagem de uma hora e meia. Quem estudar em Évora ou Bragança e residir em Lisboa, tem de multiplicar esta viagem por quatro ou cinco horas. E quem multiplica horas, multiplica despesa familiar.”

Ana Isabel Silva, estudante de Direito na Universidade do Porto, acredita que “a maioria dos jovens que entra nas faculdades do interior não conseguiu entrar no litoral”. Mais do que a localização, é a “falta de vida social e cultural fora dos muros da faculdade” que torna estes locais menos atractivos. Mara Nunes reconhece que “a pouca oferta e a calma” são motivos que afastam os jovens do interior, mas o prestígio do curso também pesa. “A Faculdade de Medicina da UBI não tem tanta fama como a da Universidade do Porto, Lisboa ou Coimbra”, aponta.

Pedro Teixeira resume: “Todos procuramos cidades interessantes do ponto de vista da qualidade de vida. E quando temos a administração pública a fechar um conjunto de actividades no interior, a dizer que temos que racionalizar os tribunais, hospitais, a banca a reduzir presença em muitas zonas do interior… Se temos uma redução de emprego qualificado numa grande parte do território, as pessoas que fazem lá o curso vão para onde?”

É preciso, então, “fortalecer algumas áreas âncora que diferenciem as instituições mais pequenas e do interior”: se os estudantes perceberem que “uma certa universidade ou politécnico são muito bons numa área ou têm reputação no mercado de trabalho e na sociedade em geral”, vão querer ingressar nela. “Isso pode implicar que essas instituições apostem em criar áreas nucleares mais fortes, em vez de tentarem apostar em cursos de todas as áreas”, refere o director do CIPES. 

“Saúde, engenharias, especialização em robótica ou alterações climáticas” são algumas das áreas em que Fabian Figueiredo acredita que se deve investir no interior. O processo, contudo, “deve ser acompanhado por investimento em residências universitárias, melhoria dos transportes públicos — “um plano de gratuitidade para as deslocações dos estudantes” — e garantia de qualidade de emprego” — “abrir lugares nos quadros das universidades e politécnicos no interior e garantir que as instituições dos serviços públicos não fecham”.

“Medidas avulsas”, como a de reduzir em 5% as vagas nas universidades do Porto e Lisboa, não são suficientes — ou têm efeitos que, para Fabian Figueiredo, são ineficientes: “Feitas as contas, as famílias acabarão por colocar os seus filhos em faculdades privadas [no litoral] porque as despesas associadas a deslocações para o interior serão mais altas do que as das propinas.” Pedro Teixeira acredita que “as pessoas respondem a incentivos” e que, por isso, “o corte tem pouco impacto porque tudo o resto se mantém igual”. Mesmo que se “obrigue” os jovens a estudar fora das grandes cidades, “eles não vão ficar por lá”. “Ou lhes pagamos e apoiamos para irem estudar [para o interior]” ou “será muito penalizador se o fizerem [sem apoios]”: “Vão ser alunos deslocados, vão ter de pagar alojamento, estar longe das famílias. Afinal, se o valor das propinas é o mesmo, que incentivo têm para se deslocar?