China responde a Trump e transforma guerra comercial em cambial

Pequim retalia contra taxas alfandegárias de Washington e confirma uma escalada do conflito comercial que está a assustar os mercados financeiros de todo o mundo.

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Jonathan Ernst

Depois de alguns dias de expectativa em relação a qual seria a resposta de Pequim ao novo aumento de taxas alfandegárias anunciado por Trump, as autoridades chinesas mostraram esta segunda-feira que não pretendem simplesmente dar a outra face, tendo decidido usar a arma mais poderosa que têm à sua disposição: a depreciação da sua divisa. A juntar-se à guerra comercial, o mundo assiste agora a uma guerra cambial e os mercados financeiros estão assustados.

Pela primeira vez desde Maio de 2008, Pequim permitiu que a sua divisa, o iuan renminbi, se desvalorizasse ao ponto de ultrapassar uma barreira importante. Um dólar passou a valer mais do que sete iuans, após a divisa chinesa ter perdido 1,4% do seu valor.

Os responsáveis do banco central da China justificaram esta depreciação com as pressões exercidas pelos mercados precisamente por causa do impacto das medidas proteccionistas dos EUA. No entanto, noutras ocasiões, as autoridades chinesas defenderam a sua divisa, evitando a sua queda. Agora, mostraram que estão de novo dispostas a usar a taxa de câmbio como arma de retaliação contra os EUA.

Uma depreciação do iuan face ao dólar significa imediatamente que as exportações chinesas para os EUA se tornam mais competitivas, compensando pelo menos parcialmente o impacto negativo das taxas alfandegárias impostas por Washington. No sentido contrário, um dólar mais forte face ao iuan torna as exportações norte-americanas para a China mais caras e menos competitivas. Claro que uma desvalorização de divisa não tem apenas vantagens para a China, uma vez que pode conduzir a uma saída de capitais do país e ao surgimento de pressões inflacionistas.

A acrescentar à flutuação do valor do iuan, foram também publicadas esta segunda-feira notícias que dão conta de uma instrução dada às empresas públicas chinesas para travarem as importações de bens agrícolas provenientes dos Estados Unidos. No final do ano passado, Donald Trump e Xi Jinping tinham assinado uma trégua temporária, que incluía a promessa da China de reforçar as suas compras de produtos agrícolas norte-americanos, nomeadamente soja.

Depois do reforço das taxas alfandegárias sobre os produtos chineses anunciado por Donald Trump na semana passada, a resposta agora dada pela China, transformando a guerra comercial em guerra cambial, representa uma escalada do conflito que pode ter impactos económicos significativos a uma escala internacional. O presidente norte-americano, mais uma vez através da sua conta Twitter, já reagiu à acção da China, classificando-a de “manipulação de divisa”. “Esta é uma importante violação que irá enfraquecer grandemente a China ao longo do tempo”, escreveu Donald Trump que aproveitou ainda para enviar um recado à Reserva Federal norte-americana, a quem tem pedido mais descidas das taxas de juro para não permitir uma apreciação do dólar.

No imediato, a resposta dos mercados foi, sem surpresa, bastante negativa. As bolsas, que desde a semana passada já registavam perdas devido à subida de taxas alfandegárias pelos EUA, voltaram esta manhã, na Ásia e Europa, a apresentar uma evolução muito negativa. À tarde, Wall Street abriu também a registar perdas.

Em paralelo com a queda do valor das acções, os títulos de dívida registaram uma subida, o que significa que as taxas de juro da dívida se tornaram mais baixas. A dívida pública portuguesa não foi excepção, tendo as taxas de juro das obrigações a dez anos caído para o valor mais baixo de sempre, chegando, durante a manhã desta segunda-feira, a estar nos 0,28%.

Fortes quedas

As bolsas asiáticas registaram as maiores quedas em dez meses – a Bolsa de Tóquio caiu 1,74%, e as de Xangai e Hong Kong 1,9% e 2,85%, respectivamente – e as perdas estenderam-se às principais praças europeias, com os sectores tecnológico e de matérias-primas a serem particularmente castigados. Em Frankfurt, ao final da manhã, o índice de referência caía 1,67%, enquanto em Londres e Paris as desvalorizações atingiam 1,94% e 2,17%, respectivamente.

Madrid, Milão e Lisboa também negociavam “no vermelho”. Na bolsa espanhola o principal índice perdia 1,22%, enquanto na praça italiana a queda era de 1,31%. Em Lisboa, depois de uma queda de 2,19% na sexta-feira, o PSI20 agravava as perdas e caía 1,07% para 4851,210 pontos, com a generalidade dos títulos em terreno negativo e a Mota-Engil a liderar as desvalorizações, com uma queda de 4,55%.

A Bolsa de Nova Iorque, por seu lado, registou logo no arranque da sessão, uma perda superior a 2% nos seus principais índices.

Com os investidores a refugiarem-se em activos como o iene japonês e o ouro, o índice europeu European Stoxx 600 recuou 2%, agravando as perdas de 2,5% que já tinha registado na sexta-feira, depois de Trump sinalizar o agravamento das tarifas aplicáveis às importações chinesas.

Segundo a Reuters, os preços do ouro subiram mais de 1%, para o máximo de seis anos, atingindo 1456 dólares por onça, enquanto o iene, uma divisa tradicionalmente procurada em tempos de incerteza, se valorizou 0,7% face ao dólar. Em sentido contrário, e reflectindo as incógnitas relativas ao processo de saída da União Europeia, a libra mantinha-se próxima de mínimos de 30 meses.

O petróleo também estava a cair. Em Londres, a cotação do barril de Brent recuava 0,94%, atingindo 61,31 dólares por barril. Em Nova Iorque, a cotação do crude caía 0,83%, para 55,2 dólares.

Os mercados não tinham grande expectativa de que a última ronda de negociações entre os Estados Unidos e a China se concluíssem com resultados particularmente significativos, mas “muito poucos esperavam” que o presidente Trump atacasse com tarifas de 10% sobre as importações chinesas, disse à Reuters um dos responsáveis da corretora FXTM, em Londres.