O “espírito Mariazinha” voltou a animar a Atlantis Cup

O veleiro “Hexentric” venceu a classe ORC da maior e mais importante regata de vela de cruzeiro que se realiza nos Açores.

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Rodrigo Moreira Rato
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A tripulação do “Hexentric”, barco que venceu as três regatas da Atlantis Cup 2019 DR

É considerada a mais importante regata de vela de cruzeiro realizada nos mares dos Açores e uma das mais importantes a nível nacional, e, desta vez, consagrou como vitorioso o veleiro “Hexentric”, barco que venceu as três regatas da prova, tendo completado a última, uma ligação entre a Terceira (Angra do Heroísmo) e o Faial (Horta), em pouco mais de 17 horas. Mantendo a tradição, a 31ª edição da Atlantis Cup voltou a ter como um dos protagonistas o “Mariazinha”, um Wauquiez Pretorien 35 comandada por Manuel Nunes.

Pela 31.ª vez, a maior e mais importante regata de vela de cruzeiro, que se realiza anualmente nos Açores, voltou a ligar as ilhas de Santa Maria, São Miguel e Terceira, finalizando, como é hábito, no Faial. Depois de no ano passado o veleiro “Quinas”, da ilha Terceira, ter sido o grande vencedor na classe ORC, este ano o líder incontestado da 31ª edição da Atlantis Cup foi o “Hexentric”, do skipper José Henrique de Sousa Freitas e comandado por António Tangêr, que venceu as três regatas da prova, seguido do “Gustave” e do “Celtic Dream”.

Na classe Open, o pódio foi preenchido pelo “Phileas Fogg III” (1.º), pelo “Soraya” (2.º) e pelo “Ventosga” (3.º), mas, apesar de ter tido uma participação limitada, o “Mariazinha” voltou a ser um dos protagonistas, ao marcar presença na regata pelo 18.º ano consecutivo.

“Espírito Mariazinha”
Com quase quatro décadas de mar, este Wauquiez Pretorien 35, de 1982, fez, por motivos profissionais e de saúde da habitual tripulação, apenas a derradeira perna da prova, entre Angra do Heroísmo e a Horta, mas João Nunes, um dos habituais skippers do “Mariazinha” e filho do proprietário do veleiro, Manuel Nunes, explicou em conversa com o PÚBLICO que, apesar de esta ser a primeira vez que fizeram a Atlantis Cup “de forma parcial”, o mais importante foi manter vivo o “espírito Mariazinha”.

Técnico de cardiopneumologia, João Nunes conta que necessita de tirar férias para fazer as duas principais provas náuticas açorianas - a Angra Bay Cup - “8 aos ilhéus” e a Atlantis Cup. Assim, a opção este ano recaiu na primeira, que teve lugar no final de Junho, mas porque no “Mariazinha” não abdicam de se divertirem, o hábito de participar na Atlantis Cup manteve-se.

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“Qualquer pessoa é bem-vinda a bordo, mas é bom que se queria divertir. Se vem com grandes ambições de regata…. Fazemos o que podemos, mas não abdicamos de nos divertir. Quem gosta, gosta. Quem não gosta, há mais barcos”, explica João Nunes, falando de um barco com história, que já é uma referência nos Açores.

Adquirido em 2001 em Lisboa por Manuel Nunes, o “Mariazinha” foi baptizado em homenagem à sua esposa, uma das 35 vítimas do voo 530 da companhia aérea SATA, que em Dezembro de 1999 colidiu com o Pico da Esperança, na Ilha de São Jorge, e João Nunes recorda que depois de o seu pai adquirir o Wauquiez Pretorien 35, um veleiro que na altura era “um pouco maior do que o pretendido”, mas que impressionou pelo “bom estado” e “muito conforto”, pai e filho fizeram “um curso de vela na Horta”.

Esse foi o rastilho: “Depois decidimos que devíamos investir num barquinho para fazermos umas brincadeiras.” No ano seguinte, em 2002, Manuel e João Nunes fizeram “as primeiras Sanjoaninas” dando início a uma tradição que se mantém nos mares dos Açores até hoje.

A história teve, no entanto, algumas evoluções. João Nunes conta que, após “três ou quatro anos”, já estava no comando do “Mariazinha”. Motivo? “No início era o meu pai que ficava ao leme, mas como ele não tem matreirice e é muito bonzinho, às vezes deixava os outros fazerem coisas que não deviam. Então, comecei a tomar conta para que não se aproveitassem dele.”

Apesar de a tripulação ser experimentada e competente, quem sobe a bordo do “Mariazinha” tem, no entanto, que cumprir alguns requisitos. “As pessoas que andam neste barco têm o mesmo espírito, que é o espírito de convívio, brincadeira e amizade. Desde o início, que o meu pai faz questão que no fim das regatas haja qualquer coisa para comer e beber. Que se possa conviver, não seja apenas ir ao mar e vir para casa. Depois ganhou fama e nunca mais parou.”

Por isso, João Nunes garante que “qualquer pessoa é bem-vinda a bordo do ‘Mariazinha’”, mas “é bom que se queria divertir”. “Se vem com grandes ambições de regata…Fazemos o que podemos, mas não abdicamos de nos divertirmos. Quem gosta, gosta. Quem não gosta, há mais barcos”, conclui este açoriano.

Sobre o futuro do “Mariazinha”, João Nunes admite que “os tempos são outros” e pode ser difícil continuar a “manter o barco”. “Não vou abdicar do que preciso na minha vida para manter um barco, o que não é barato, e no final do ano serei pai… De qualquer maneira o meu filho, seja menino ou menina, vai para o mar. Já tem um barco de vela ligeira para brincar. Vai ser incentivado, mas depois é claro que a decisão será dele ou dela. Mas nascendo no meio, é difícil não gostar…”

Qualquer que seja o futuro do “Mariazinha”, o passado já não será apagado e, por isso, João Nunes deixa uma sugestão: “Se este barco falasse… já disse ao meu pai para fazer um livro de memórias.”

Prémio Mariazinha
E um dos que podia acrescentar muitos e bons capítulos à história do “Mariazinha” é Rodrigo Moreira Rato. Este especialista em vela e responsável pela página LX Sailing, lembra em conversa com o PÚBLICO que “conheceu o pessoal do Mariazinha há seis ou sete anos”, quando foi aos Açores fazer uma Atlantis Cup.

“Percebi que eram diferentes, que todos tinham uma paixão pelo mar. Que era um clube de amigos que tinha o objectivo de participar em regatas e que o barco era o porto de abrigo de toda a gente.”

Natural do Porto e residente em Lisboa, Rodrigo Moreira Rato refere que rapidamente percebeu que o “Mariazinha” é um barco “mítico nos Açores pelo espírito que têm”. “O espírito de dar, de partilhar, de conviver, de contar histórias… O espírito de se rir e de passar um bom bocado.”

Por se irritar “profundamente que apenas quando as pessoas morrem é que dizem que se devia ter feito qualquer coisa por um tipo que era extraordinário”, Rodrigo Moreira Rato, aproveitando o facto de pertencer à organização da Angra Bay Cup, propôs à direcção do Angra Iate Clube que se promovesse na prova um troféu chamado “Mariazinha”, que “no primeiro ano seria oferecido ao Manel [Nunes], por tudo o que deu ao mar e à vela”.

“A partir daí, desse primeiro ano, todos os anos é votado o barco com mais ‘espírito Mariazinha’. É uma forma bonita de homenagear a mulher do Manel, que faleceu, o Manel, o João e a Ana…”, salienta.

A sugestão foi feita e imediatamente aceite. “Nestes últimos dois anos, o prémio já não foi decidido pela direcção. Houve uma votação entre todos os participantes, mas o ‘espírito Mariazinha’ manteve-se. Por clara maioria, o ‘troféu Mariazinha’ foi sempre entregue ao Mariazinha. É uma história simples, mas que apenas pretende reconhecer pessoas com uma bondade e paixão pelo mar enorme.”

Por tudo isto, Rodrigo Moreira Rato deixa uma sugestão: “Quem vier aos Açores e ao Faial, que bata à porta e pergunte quem é o Manel do ‘Mariazinha’”.