Da serra de Sintra ao Guincho: o que um dia sem planos pode fazer

A leitora Patrícia Caeiros partilha a sua experiência “no país mais bonito do mundo”.

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Gosto de chegar ao fim-de-semana como agora, sem planos, para os decidir em cima da mesa do pequeno-almoço. Abro o maps.me, uma aplicação que conheci em 2016 pela mão da Karen, uma holandesa com quem eu viajei quase todo o Camboja. Disse-me, como é que te orientaste a viajar até agora sem conheceres isto? A partir de então, não há lugar para onde vá em que não utilize a aplicação. Mesmo em Portugal. Volto com o pensamento à mesa e amplio o mapa. Os dedos deslizam para onde tenho vontade de ir: o Santuário da Peninha, na serra de Sintra. Depois, decido-me sobre o que fazer a seguir quando lá chegar. E enquanto os outros se espreguiçam, ponho dentro da mochila a máquina fotográfica, qualquer coisa para comer e uma daquelas toalhas que dá para tudo, e saio por aí para aproveitar a vida que amanhece ao som do silêncio.

Já na estrada nacional, e ainda antes do terminar da curva, surge à direita a estrada de terra que eu tinha visto no mapa. Estaciono. Não me aventuro com o carro caminho acima e sigo a pé nas horas que ainda são de manhã. Vou sozinha, num daqueles dias em que preciso que sejam só meus para uma pausa de tudo o resto.

Passam ciclistas com um bom dia nos lábios. Um sorriso no rosto. Respondo-lhes de volta, e o silêncio enche-me o espaço em volta assim que eles desaparecem estrada abaixo, com toda a vida que existe no restolhar das árvores sopradas por um vento que não incomoda. A manhã cresce no tempo e a vista que estava coberta atrás da vegetação abre-se agora para me espantar os lábios. Tão bonito. Continuo a caminhar e a subida cresce íngreme, mas ainda fácil.

Chego ao topo e nem acredito na beleza que vejo. Serve para lembrar-me que Lisboa é muito mais do que só o dia‑a‑dia. Visito o santuário enquanto experimento uns disparos com a máquina. Sento‑me. Não está ninguém e penso no privilégio que é poder estender a vista neste canto do mundo que Portugal ainda guarda com zelo. Os meus olhos alongam-se até à praia do Guincho e é para aí que me decido ir a seguir.

Já na areia, estico a toalha que dá para tudo, e tiro o almoço da mochila. O vento não perdoa, mas deixo-me a aproveitar o tempo com um livro na mão e sem pressas. Permito‑me estes momentos para que tudo o resto assente no lugar devido e eu possa respirar uma paz que se demore dentro do peito.

A areia enche-me os olhos e a boca, e eu consulto o maps.me sobre onde ir a seguir: um trilho que não conheço e que é aqui perto e para lá da praia do Abano. Deixo o carro estacionado junto à praia do Guincho numa coragem de que consigo ir a pé, mas, depois de uma manhã a andar, prefiro esticar o dedo e pedir boleia como já vi a Marta, a Joana e o Tiago fazerem, e não demora até que alguém pare.

O Fernando, que até vai para perto de onde quero ir, ajeita o banco da frente num arranjar de espaço para eu caber, e conta-me que já ali vai fazer windsurf há anos. Conversamos o tempo que separa a distância do destino e, no fim, aponta-me o início do trilho que procuro e diz, a minha irmã costuma fazê-lo, vais gostar. Aventuro-me de mochila às costas por onde nunca fui, convicta de que só pode ser bonito. E não me enganei.

O caminho segue vazio de gente, e eu encanto-me com o mar e as encostas e as falésias e a luz que desce sobre elas. O percurso corta para o miradouro que eu procuro e tem o tamanho onde só cabem dois pés rodeados de vegetação. Antes da beira da falésia, tiro a mochila. Respiro fundo. Sento-me. Cruzo as pernas. E do mar sobe aquele cheiro a maresia que se pega ao olfacto e que me faz sorrir um sorriso pelo dia que se tornou inesperado e mergulhado de lugares que prolongam os olhos na convicção de que vivo no país mais bonito do mundo.

Patrícia Caeiros