Editorial

FMI: Centeno perdeu, Costa ganhou

Costa ganha em manter Mário Centeno ao seu lado, embora a imagem do ministro contrariado não seja a melhor para apresentar à opinião pública. Depende da capacidade de Centeno – aqui e na Europa – de gerir a desilusão

,Fundo Monetário Internacional
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LUSA/MANUEL DE ALMEIDA

Do que se foi percebendo dos últimos dias, Mário Centeno gostaria mesmo de liderar o Fundo Monetário Internacional. Para um economista da sua “criação”, o FMI é o posto máximo a atingir, uma espécie de presidência das Repúblicas da economia e finança internacionais, enquanto a presidência do Eurogrupo, que neste momento o ministro das Finanças detém, acaba por ser apenas uma espécie de prémio de consolação. Como escreveu Rui Tavares no PÚBLICO, esta até poderia ser uma altura péssima para Centeno sair do Eurogrupo, mas o ministro das Finanças não resistiu – e aqui vale a pena citar António Costa num arroubo de pré-campanha – ao “desassossego da vontade”.

A saída de Centeno não dava jeito nenhum a Costa, já que o ministro das Finanças transformou-se num activo político extraordinariamente valioso – é ele o homem das “contas certas”, o slogan que já foi o estandarte da campanha do PS nas europeias e será repetido nas legislativas. É o homem do défice zero e do futuro excedente orçamental, os dois novos mantras socialistas. Como o PÚBLICO já escreveu, António Costa quer mesmo que Centeno seja o ministro das Finanças do governo saído das próximas legislativas se o PS ganhar – que é neste momento o único cenário que, em termos de previsões políticas, está em cima da mesa.

Mas Costa não podia travar os desejos do seu ministro das Finanças: o primeiro-ministro começou por dizer que “a hipótese” não estava nos seus planos para, mais tarde, numa euforia de comício, ter admitido que estariam eventualmente destinados a Centeno (outros) altos voos internacionais. Enquanto isto, Centeno aceitava fazer parte dos “happy few”. Mesmo no tweet da retirada da corrida, Mário Centeno insistiu que, saindo de cena, poderia reentrar em cena. Teve uma derrota pesada – que só seria eventualmente reversível se Georgieva acabasse chumbada por causa da idade e Centeno fosse chamado, sabe Deus como, a salvar a pátria FMI. De qualquer forma, os países emergentes desta vez não tencionam facilitar a vida à Europa que sempre viu a presidência do Fundo como seu território.

Evidentemente que António Costa ganha em manter Mário Centeno ao seu lado, embora a imagem do ministro contrariado não seja a melhor para apresentar à opinião pública. Depende da capacidade de Centeno – aqui e na Europa – de gerir a desilusão. Do ponto de vista pessoal, a vitória de Georgieva é um abalo na imagem do “Ronaldo das Finanças”.