Opinião

A instabilidade democrática de uma Europa pós-”Brexit”

Boris Johnson, colecionador de discursos contra minorias, também terá grandes dificuldades em resolver o problema.

Nos últimos anos muito se tem discutido acerca da saída do Reino Unido da União Europeia, nas últimas semanas o debate tem ganhado ainda mais força na expectativa de quem seria nomeado o novo primeiro-ministro da Inglaterra. O anúncio, então, chegou e o nome do conservador Boris Johnson – ex-presidente da câmara de Londres - para ocupar o cargo tem gerado debates e feito a opinião pública refletir para onde caminham as grandes potências democráticas. Antes de qualquer análise acerca da nomeação de Johnson e o que ela representa - é relevante lembrar que a elite britânica sempre teve certa resistência à adesão à UE; já o fez tardiamente e só aconteceu por perceberem um espaço potencial a ser utilizado instrumentalmente para liberalização do mercado e fortalecimento do neoliberalismo. A centro-esquerda britânica, desde o Labour Party, sempre adotou posições críticas à UE e bloqueou quaisquer políticas mais profundas de integração até sua transformação liberal liderada por Tony Blair. À medida que as instituições que compunham a UE se fortaleciam, com o aumento do poder, veio o crescimento da burocratização.

Face essa situação, a posição da Grã-Bretanha pode ser sintetizada em duas vertentes – por um lado há uma elite conservadora e protecionista que acha que como Estado nacional consegue gerir melhor sua economia, inclusive gerir um mercado interno maior. Por outro lado, há a posição de parte da esquerda britânica que vê a UE como instrumento de neoliberalização, onde basicamente o livre mercado é feito para enfraquecer os direitos sociais existentes - já que o mercado unificado não aceita monopólios económicos - em resposta incentiva e promove privatizações dentro da economia desde transportes, energia, saúde, educação, etc.  O que resultou numa imensa desindustrialização dos países periféricos, além da precarização do trabalho. As economias periféricas da Europa (desprotegidas pelos estados nacionais) são bons exemplos de como a liberalização acabou por levar economias menos competitivas à falência. Nesse sentido a UE sempre foi um projeto do grande capital, porque favoreceu os interesses económicos da atividade industrial francesa e alemã.

Fica claro que para o Reino Unido esse pólo sempre foi contestável, fosse de um ponto de vista social, fosse do ponto de vista das elites por sua economia está baseada sobretudo no comércio com outras partes do mundo, como os EUA, por exemplo.

Nesse sentido o contexto do “Brexit” é específico - porque por um lado tem uma força política aliada às elites econômicas conservadoras que usam o discurso anti-Europa para canalizar o discurso anti-imigração, etc… Mas, por outro lado tem a esquerda que se viu diante de um impasse – aliava-se aos liberais em defesa da UE (justificando-se no discurso de defesa da livre circulação de cidadãos); ou sai em defesa do “Brexit” porque vê a União Europeia como esse projeto ultraliberal capitalista. Essas duas vertentes ainda vivem um combate interno. Na Inglaterra o Labour Party, que resistia na defesa de um “Brexit” mais à esquerda, há poucas semanas decidiu que a posição oficial do partido será de que se forem os conservadores a disputar o espaço de saída do Reino Unido – a decisão do partido é adotar uma postura mais moderada - pela defesa da permanência na UE.

A ascensão de Boris Johnson vem oportunisticamente de encontro à incapacidade da ex primeira-ministra Theresa May de resolver os impasses gerados pela saída do “Brexit” – desde um ponto de vista económico, ou por questões territoriais. Populista e egocêntrico - Johnson foi eleito com votos dos membros do partido conservador, sem eleições – o que já põe em questão sua legitimidade democrática. Colecionador de discursos contra minorias, também terá grandes dificuldades em resolver o problema. O que deixa cada vez mais evidente o caminho perigoso que a crise da elite política que não tem como contrapeso uma alternativa das massas está a conduzir as democracias.

As correntes progressistas dominantes se articulam entre dois pólos liberais, por um lado saem em defesa de um consenso racional que conduz à um interesse comum, postura defendida por filósofos como Habermas e Rawls. Em oposição a cientista política Chantal Mouffe propõe um pluralismo agonístico - que vê na democracia a necessidade da construção de mecanismos capazes de mobilizar sem negar a existência conflitiva da dimensão humana, de forma que os inimigos possam se converter em adversários dentro das regras do jogo democrático. Se alguma dessas alternativas será viável, só o tempo dirá, facto é que nenhuma delas garante a radicalidade necessária para uma mudança real de paradigma, resta-nos saber quão longe os discursos conciliatórios nos irão levar.

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