Ministra tenta esvaziar manifestação, mas médicos das USF não ficaram convencidos

O Ministério da Saúde anunciou esta quarta feira que já tem o estudo que mostra quais são as Unidades de Saúde Familiares que podem transitar de modelo, trazendo mais autonomia e incentivos financeiros para as visadas. O anúncio foi feito horas antes da manifestação dos médicos das USF.

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Rui Gaudêncio

O Ministério da Saúde anunciou esta quarta-feira que já recebeu o estudo onde constam quais serão as Unidades Familiares de Saúde (USF) que irão transitar do modelo A para o B. As USF contempladas nesta transição passam a trabalhar de forma mais exigente, mas ficam também com uma maior autonomia e mais incentivos financeiros.

Este anúncio foi feito horas antes do início de uma manifestação marcada pelos médicos das USF, para Lisboa, esta manha, às portas da USF da Baixa. Uma iniciativa promovida pela Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar (USF-AN). Na lista de exigências, pediam para conhecer os resultados do relatório, que estabelece quais são as USF que transitam para o modelo B. Reclamavam ainda pela ausência de resposta a um pedido de reunião urgente que dirigiram à ministra da Saúde, Marta Temido, a 24 de Julho. A USF da Baixa, por exemplo, já está em actividade desde 2015 e é considerada um modelo.

“As USF transitam para o modelo B até Outubro de 2019. Mas o estudo devia ser homologado até 30 de Junho. Podemos ficar satisfeitos [com as declarações do ministério], no entanto, o estudo não é tornado público”, reclama Diogo Urjais, presidente da direcção da USF da Baixa.

Já Martino Gliozzi, coordenador desta USF, lamenta a altura em que o Ministério da Saúde decidiu fazer o anúncio: “Quando a USF pediu reuniões urgentes à ministra não houve resposta por parte deles… É um bocado triste [que o anúncio sobre o relatório] venha desta maneira”, defende.

O coordenador mostrou-se ainda desiludido com “a falta de clareza por parte do Ministério”: “É possível que passemos [para o modelo B] em Outubro, mas neste momento a minha equipa está desmotivada, porque não sabe o que vai acontecer”, lamenta.

Também a Ordem dos Médicos (OM) já se manifestou em comunicado sobre as circunstâncias em que surge o anúncio do ministério, afirmando que “a tutela escolheu estrategicamente” o dia para fazer estas declarações.

“A passagem de USF modelo A para modelo B deveria ser automática, sempre que cumpridos os critérios exigíveis. Ao bloquear as USF, o Ministério da Saúde está a bloquear o desenvolvimento do Serviço Nacional de Saúde”, defende Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, citado em comunicado.

Nesse mesmo documento, a OM relembra ainda um estudo de Henrique Botelho, coordenador nacional para a Reforma dos Cuidados de Saúde Primários, onde se concluiu que “o Estado pouparia mais de 100 milhões de euros num ano se os cuidados de saúde primários fossem organizados na totalidade em USF modelo B”.

Nas declarações que fez esta quarta-feira à imprensa, Diogo Urjais também relembra esse estudo: “Se este é realmente o modelo de eleição, e se presta melhores cuidados ao cidadão, o Governo também tem de demonstrar a aposta nesse modelo, cumprindo aquilo que obviamente está definido”, afirma.

Certo é que o presidente da direcção da USF da Baixa já deixou assente que caso não se resolva a situação em Setembro (compreende que em Agosto o processo fique “um bocado parado”), partirão “para outras formas de luta”. “Se for preciso, infelizmente, com medidas que tenham impacto no cidadão e com o apoio, obviamente, dos sindicatos e das ordens respectivas”, acrescenta.

Também Martino Gliozzi afirmou que, caso a USF da Baixa não passe para o modelo B, “é possível que façamos alguma coisa para mostrar o nosso descontentamento”. “Eu gosto de trabalhar aqui. Mas como coordenador, é muito mais complicado quando não há clareza [por parte do Ministério]. Ainda não estou pronto para desistir, mas a paciência também tem um certo limite”, remata.

*notícia corrigida com a informação de que a manifestação era de todos os médicos das USF