Na Irlanda do Norte está a chave do “Brexit”. E Boris Johnson passou por lá

Primeiro-ministro britânico foi a Belfast garantir o apoio do DUP, prometer o fim do backstop e debater soluções para a ausência de governo no território. Sinn Féin pediu referendo à reunificação irlandesa em caso de “Brexit” sem acordo.

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Boris Johnson com o ministro para a Irlanda do Norte Secretary Julian Smith Kelvin Boyes/Getty Images

Depois das visitas à Escócia e ao País de Gales, Boris Johnson aterrou na terça-feira à noite na Irlanda do Norte, para mais uma ronda de consultas a representantes políticos, civis e empresariais, determinado em ajudar os partidos locais a ultrapassar o cenário de impasse – o território está sem governo desde 2017. Com o “Brexit” como pano de fundo, o primeiro-ministro do Reino Unido reuniu-se esta quarta-feira com os líderes partidários para lhes garantir que o backstop será riscado do acordo de saída da União Europeia, defender “a letra e o espírito” dos acordos de paz da ilha e prometer todo o apoio político e económico num cenário de no deal

Uma vez que o respaldo dos deputados do Partido Unionista Democrático (DUP) é essencial para o Partido Conservador manter a maioria parlamentar na Câmara dos Comuns de Westminster, Johnson reuniu-se com os seus representantes logo na terça-feira, ao jantar, antes do encontro “oficial” desta quarta-feira. As partes aparentam estar em sintonia sobre a saída da UE a 31 de Outubro, com ou sem acordo.

“O no deal está em cima da mesa por causa de uma União Europeia muito beligerante, que em vez de se focar num acordo que seja bom para todos, quer desmembrar o Reino Unido – um cenário que nenhum primeiro-ministro quer”, afirmou a líder dos unionistas, Arlene Foster, revelando que Johnson também concorda sobre “a necessidade de Dublin e Bruxelas reduzirem a retórica”.

Foster disse ainda que o sucessor de Theresa May lhe garantiu que nunca irá assumir uma posição neutral no debate sobre a permanência da Irlanda do Norte do Reino Unido, uma vez que é um acérrimo defensor da unidade territorial do país. Uma posição que a oposição justifica ter apenas a ver com a imprescindibilidade dos votos do DUP para sobreviver no Parlamento.

Esta questão, ainda que bem presente no dia-a-dia político e social da ilha irlandesa, voltou a merecer destaque internacional após a decisão dos britânicos, tomada em referendo, a favor do “Brexit”. E tem sido um dos principais bloqueadores dos avanços no processo.

O problema da fronteira

A vontade do Reino Unido de sair da UE obriga britânicos, irlandeses e europeus a pensarem em formas de evitar a edificação de uma fronteira física entre a Irlanda do Norte (Reino Unido) e a República da Irlanda (Estado-membro). Só que o simples debate sobre uma questão que, à partida, acarretaria problemas mais práticos que políticos, está a recuperar para o espaço mediático fantasmas do longo conflito entre protestantes e católicos.

Mesmo que Boris Johnson garanta o contrário – como o voltou a fazer nesta visita a Belfast, dizendo que atribui “grande importância à letra e ao espírito” dos acordos de paz –, todos os envolvidos temem que o “Brexit”, e particularmente a possibilidade do regresso dos controlos alfandegários entre os dois territórios, coloquem em risco o Acordo de Sexta-Feira Santa (ou Acordo de Belfast), de 1998, que pôs fim ao conflito.

A conveniência dos acordos de paz é tão actual, que um grupo de congressistas e diplomatas norte-americanos, de ascendência irlandesa, prometeram bloquear qualquer futuro acordo de comércio entre Reino Unido e EUA, se os mesmos forem colocados em perigo.

A solução apresentada pela UE, no acordo de saída negociado com May – e chumbado três vezes no Parlamento britânico –, implica o alinhamento total da Irlanda do Norte com as regras do mercado único e a criação de uma união aduaneira com o Reino Unido, enquanto não for encontrado um plano alternativo ou não for fechado um acordo de comércio livre entre Londres e Bruxelas. O famoso backstop é inegociável para a UE e foi isso Leo Varadkar, primeiro-ministro irlandês, reforçou, num telefonema recente com Johnson.

Unionistas e conservadores temem, no entanto, que o backstop, crie uma “fronteira” no Mar da Irlanda, situação que seria inconcebível para quem defende a permanência da Irlanda do Norte no Reino Unido. 

Por outro lado, os republicanos do Sinn Féin, acreditam que os desafios trazidos pela cláusula de salvaguarda reforçam a sua grande reivindicação política: a reunificação política e territorial da ilha. Principalmente num caso de “Brexit” sem acordo. E foi isso mesmo que disseram a Johnson, na reunião desta sexta-feira em Stormont – o parlamento norte-irlandês –, na hora de exigir um referendo.

“Avisámos [Johnson] que o que está em causa, a longo prazo, é uma mudança constitucional (…) que representa uma alteração dramática das circunstâncias desta ilha. Seria inconcebível que as pessoas não pudessem ter a oportunidade de decidir o seu futuro”, atirou Mary Lou McDonald, líder do Sinn Féin. “Quaisquer planos [para um no deal] têm de incluir a questão constitucional e uma votação sobre a fronteira”, insistiu.

Sem governo

Todo este debate em volta do tema do momento, o “Brexit”, foi, ainda assim, colocado para segundo plano por Boris Johnson. O primeiro-ministro conservador garantiu que o principal objectivo principal da sua visita era o de ajudar a Irlanda do Norte a ultrapassar o impasse político.

A falta de entendimento entre os principais partidos, no âmbito do sistema de partilha de poder que ali impera, deixou a Irlanda do Norte sem governo efectivo. A situação arrasta-se há mais de dois anos e o Governo britânico e irlandês ofereceu-se para mediar as negociações iniciadas em Maio.

“Vou ajudar como puder, para que as partes ultrapassem [o impasse]”, prometeu Johnson. Por enquanto não há solução à vista, nem sinais de alteração dos pressupostos de diálogo.