Crítica

No calor dos festivais (2)

Vários festivais de Verão chegaram ao fim no passado fim-de-semana. Entre os múltiplos concertos desta recta final, destaque para a prestação do Quarteto Casals, fora de série, no encerramento do Festival Cistermúsica.

Concerto de rock
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A flautista Ana Ferraz juntou-se ao Quarteto Verazin na recta final do Festival Internacional de Música de Póvoa de Varzim DR
Violino
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O Quarteto Casals revelou-se uma vez mais fora de série no encerramento do Festival Cistermúsica DR
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O Estágio Gulbenkian de Orquestra terminou com um concerto no Teatro Aveirense dirigido pela maestrina Joana Carneiro DR

Menos quente do que o anterior, o passado fim-de-semana coincidiu com o final de vários festivais de Verão, de Norte a Sul do país.

A belíssima igreja românica de S. Pedro de Rates recebeu uma vez mais o Quarteto Verazin, formação residente que, no antepenúltimo concerto da 41.ª edição do Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim (cujo habitual peso de música antiga se apresentou muitíssimo diluído na programação), transpareceu o caminho trilhado em conjunto nos últimos anos.

Foi na companhia da flautista Ana Ferraz que o agrupamento deu início ao concerto, na interpretação do Quarteto para flauta e cordas em ré maior, KV 285, de Mozart, em que sobressaíram seguramente flauta e violoncelo. Na mesma tonalidade, escutou-se a Serenata para flauta, violino e viola, op. 25 de Beethoven, juntando o 1º violino do Quarteto Verazin às duas intérpretes convidadas – Ana Ferraz e a violetista Sofia Sousa, respectivamente, vencedoras do Concurso de Interpretação do Estoril 2018 e do Prémio Jovens Músicos 2018. Esta jovial partitura, a que falta o timbre cheio de um violoncelo, terá porventura sido aquela que melhor soou, na passada quinta-feira, com intérpretes seguros a dialogarem.

Uma quinta abaixo, a segunda parte do concerto seria preenchida pelo exigente Quinteto para cordas nº 2, op. 111, de Brahms, cuja interpretação teria certamente beneficiado se o papel de viola I tivesse sido atribuído a Sofia Sousa, acrescentando mais uma às duas âncoras reais do agrupamento (violino I e violoncelo).

Um pouco mais ao centro, em Coimbra, o Festival das Artes regressou ao Convento São Francisco no penúltimo dia da sua 11.ª edição. Foi na Antiga Igreja do Convento que se escutou um interessante programa de música antiga, com uma boa dose de órgão – toda uma primeira parte composta por obras de Hans Leo Hassler e Abraham van den Kerckhoven. Ao belíssimo instrumento que antes se ouvira, associou-se entretanto um violoncelo pouco audível, para uma Sonata de Domenico Gabrielli. As cordas soaram de forma mais clara na Sonata para violoncelo solo com baixo RV 44, de Vivaldi, que antecedeu a interpretação da Sonata Prima, de Giovanni Benedetto Platti. Para que não restassem dúvidas sobre as capacidades do violoncelista, que até então sobressaíra mais visual do que auditivamente, Pedro Massarrão brindou prontamente o público com o divulgadíssimo Prelúdio da Suite nº 1 para violoncelo, em sol maior, BWV 1007, de Bach, numa leitura de intenções bem transparentes.

Absolutamente fora de série foi o concerto do Quarteto Casals, no encerramento da 27.ª edição do Festival Cistermúsica, preenchido por obras incontornáveis do repertório desta nobre formação. A acústica reverberante do Celeiro do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça talvez não tenha permitido saborear plenamente todas as nuances da interpretação do Quarteto de cordas em dó maior, op. 33 nº 3, O pássaro, de Haydn, mas foi óbvia, desde o primeiro momento, a excelência do trabalho do agrupamento. Uma vez mais, a introdução de Alexandre Delgado (em português e em inglês) ajudou à fruição da música, preparando para a escuridão do dramático Quarteto nº 8 em dó menor, op. 110, de Chostakovitch, a que o Quarteto Casals se entregou sem reservas, com afinação seguríssima e pleno domínio de arcos, explorando uma ampla paleta tímbrica de forma a revelar diferentes patamares expressivos. Após um longo intervalo, o público, já absolutamente rendido, apreciou ainda um muito enérgico Quarteto Op. 59 nº1 (Razumovsky), de Beethoven, interpretado com imenso espírito e muito boa gestão de tempo, fazendo contrastar vigorosa força e pungente introspecção.

Embora não se trate de um festival, o Estágio Gulbenkian de Orquestra (EGO) tem-se tornado também ele uma tradição de Verão, reunindo dezenas de jovens instrumentistas portugueses, ou residentes em Portugal, na preparação e interpretação de um programa orquestral, sob a orientação de um preparadíssimo grupo de tutores de naipe e a direcção da maestrina Joana Carneiro. Iniciado em Aveiro, foi de regresso ao Teatro Aveirense que se concluiu a digressão do EGO, depois de concertos na Casa da Música, no Teatro Municipal de Bragança, no Mosteiro de Alcobaça e na Fundação Calouste Gulbenkian. O programa era bastante difícil, não só de interpretar como de escutar, e o público não esteve particularmente à altura do desafio, sendo raro o momento em que a música não se fez acompanhar de sussurros e movimentos inquietantes na plateia. Contudo, os jovens músicos mantiveram a concentração e, mesmo com a complexa Nona Sinfonia de Mahler, deixaram uma franca mensagem de esperança quanto ao futuro da música em Portugal. O nível geral foi bastante bom, mas os violinos mostraram-se mesmo capazes de fazer inveja a algumas das nossas (escassas) orquestras profissionais.