Crónica

A felicidade está no outro lado do mundo?

Eles saem porque querem ser felizes. A sua forma de resistir a um país que não os quer é com a ideia da busca da felicidade.

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Jan Tinneberg/Unsplash

Saem do país porque cá não entraram no curso que mais desejavam. Aos 18 anos, eles não querem sair, mas as ordens e associações profissionais que pressionam os sucessivos governos a não abrir mais vagas no ensino superior, levam a que, há décadas, os miúdos saiam para Espanha, Reino Unido, Hungria, Estónia à procura de concretizar os seus sonhos. E os pais pagam.

Saem do país para fazer o mestrado ou o doutoramento. Não porque cá não existam formações de referência com professores de renome, mas porque dizem-lhes que os empregadores dão mais peso a quem tem formação no exterior. E os pais pagam.

Saem do país para fazer voluntariado. Pasme-se. Não porque por cá não existam crianças maltratadas, animais abandonados ou praias cheias de plástico e lixo para ser apanhado, mas porque, mais uma vez, dizem-lhes que os empregadores reconhecem quem tem experiência lá fora. E os pais pagam.

Eles saem porque os pais podem, mas também porque eles querem. Saem por estas razões e por mais algumas — é importante ver o mundo e ter mundo. É importante conhecer os outros, aprender a ser estrangeiro noutras terras para compreender o que é ser estrangeiro na sua. É importante para aprender a ser tolerante, a respeitar as outras religiões, culturas e tradições, a ser um cidadão do mundo, como terá dito Sócrates. Não esqueçamos que foi para se aprender a ser europeu que se criou o programa Erasmus.

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Nelson Garrido

Eles saem e quando voltam inscrevem nos seus curriculum vitae toda a sua experiência no exterior. São uma espécie de estrangeirados porque trazem mais-valias como a maneira como se trabalha, as relações profissionais menos hierarquizadas, outras ideias, novas necessidades, etc.. Trazem a licenciatura na universidade francesa; o voluntariado na associação de apoio infantil nepalesa; o estágio no ateliê de arquitectura holandês, no jornal de referência húngaro ou no hospital argentino. Têm currículos que nem os empregadores, nem os futuros colegas de trabalho têm. E, em contrapartida, o que lhes oferecem? Estágios atrás de estágios. Promessas atrás de promessas. Nada de compromissos.

Eles voltam a sair, cansados de serem estagiários profissionais. E quando saem ouvem vozes indignadas que os condenam. São uns incultos — eles que andaram pelo mundo, conheceram outras realidades, provaram outros sabores —; não se comprometem com nada, não vestem a camisola — eles que tiveram mais formação, experiências diferentes que podem partilhar, mas que ninguém está disponível para os ouvir, para abrir-lhes as portas, para os fazer sentir que pertencem a um lugar.

Eles voltam a sair e espantamo-nos por o fazerem. Por que não se contentam com o que lhes oferecem? Por que é que com essas migalhas não se casam, por que não têm filhos? São uns egoístas, uns autocentrados, têm medo do compromisso, catalogamo-los. Uma geração perdida, não como tantas outras que a antecederam, mas pior, muito pior!

Eles saem porque querem ser felizes. A sua forma de resistir a um país que não os quer é com a ideia da busca da felicidade, lá fora, onde podem ser ouvidos, onde podem brilhar — não conhecemos tantos casos de sucesso de portugueses espalhados pelo mundo, a marcar a diferença em tantas áreas, da representação à investigação? —, onde podem constituir família. Entretanto, por cá, ficam os “donos disto tudo” e os pais que investiram no futuro dos seus filhos e vêem crescer os seus netos à distância. A felicidade está no outro lado do mundo? Está, mas também podia estar aqui. Para todos.