Espanha: o ilusório acordo das “duas esquerdas”

Quem é “o guardião das essências da esquerda”? PSOE e UP são herdeiros de tradições políticas distintas.

O processo de investidura de Pedro Sánchez como presidente do governo foi mais do que um fracasso. Deixa dois vencidos: Pedro Sánchez e Pablo Iglesias. Nem Sánchez conseguiu ser investido, nem foi desta que Iglesias “assaltou os céus”. E, em geral, a “esquerda” viveu o epílogo como um fracasso: “Para que serve uma esquerda que perde mesmo quando ganha?” A verdade é que o PSOE nunca desejou a coligação com o Unidas Podemos (UP) e aceitou-o por não ter à mão uma alternativa no centro. Estes dias de vertiginosas manobras mostraram uma coisa relativamente simples: o PSOE jamais podia dar aquilo de que Iglesias precisava de obter.

Convém lembrar aquilo que o sociólogo Alberto Panadés qualificou de “coligação inaudita”. Preveniu: “Nunca se formou na Europa, em toda a sua História, uma coligação de governo como a que se anuncia entre o PSOE e o Podemos. (…) É muito difícil. Quando um partido da esquerda extrema entrou numa coligação foi sempre em coligação com, pelo menos, um partido de centro ou de direita; e quase sempre de três ou mais partidos, e em que os sociais-democratas eram o ponto médio.”

Pedro Sánchez esperou demasiado tempo para negociar. Manifestamente, só acedeu a partilhar um governo com Iglesias por não ter alternativas. Terá ainda tentado, na sua visita a Emmanuel Macron após a vitória eleitoral, obter ajuda para convencer o Cidadãos, de Albert Rivera, a não inviabilizar o seu governo. Rivera recusou, o que não foi surpresa. Sánchez preferiria um governo socialista “monocolor”, fazendo como até agora acordos à esquerda e à direita.

Um jogo perverso

Só à última hora, por causa da investidura, o PSOE aceitou abrir uma negociação com o UP, o que criou uma excessiva expectativa de sucesso. Sánchez terá sido surpreendido pelas ambições dos seus “aliados preferenciais”. Começa a vertigem. Falando numa televisão, coloca em xeque Iglesias: não confia no seu espírito democrático em “questões de Estado”, como a Catalunha. Ele é o “obstáculo” a um acordo.

Foi a breve fase do xadrez. Iglesias responde com um imprevisto gambito: sacrifica a sua pessoa. Ressume a iniciativa e, por sua vez, põe Sánchez em xeque. Nas apressadas negociações, o UP sobe a parada reivindicativa. Recusa a oferta de ministérios pelo PSOE, que lhe dariam um papel meramente “decorativo”. Os actores passam depois ao póquer. Escondem o jogo e fazem bluff. O PSOE invoca as sondagens e explica ao UP que forçar novas eleições significará a sua ruína. O UP diz que pode perder deputados mas que Sánchez perderá muito mais: a presidência do governo.

No discurso de abertura do debate da investidura, Sánchez começa por apelar à direita, pedindo a abstenção do Partido Popular e do Cidadãos. Só na última frase do discurso, e em termos frios, apela à cooperação do UP. Iglesias não abdica das suas exigências. Fugas de informação envenenam o clima. O processo negocial entra em deriva e sabe-se como acabou.

Até à votação final, pairou a incerteza. Que cartas teriam os jogadores na manga? Não tinham. E, quando Iglesias denuncia a “humilhação” que Sánchez lhe impôs, as pontes estão cortadas. Depois do epílogo, é fácil racionalizar o que aconteceu. E vem a hora das “culpas”. E da inquietação perante os efeitos do degradante “regateio em directo” no Congresso, que terá chocado muitos dos seus eleitores.

Sánchez, Iglesias e o poder

O UP enfrenta a ameaça de declínio e de novas cisões. Iglesias, o híper-líder, continua a ser contestado. A entrada no governo poderia ser a grande oportunidade de recuperação. Mas não qualquer entrada. O UP não poderia dar a imagem de “muleta” do PSOE. Precisava de estar no centro das atenções e ter um poder real. Iglesias tem razão quando diz que o que estava em jogo não eram ministérios, mas “competências”, ou seja, poder.

O UP exigiu muito. Os nomes dos ministérios podem ser poéticos. Que encobre, por exemplo, a pasta da Transição Energética, muito ambicionada pelo UP? Não significa apenas protecção do Meio Ambiente, mas, e sobretudo, a energia, o gás, o mercado energético, o controlo dos preços da electricidade e das rendas das empresas energéticas. Ora, Sánchez e o PSOE não abdicam desta área estratégica, tal como não abdicam de controlar o salário mínimo ou a tributação da banca e dos ricos.

E há outros cálculos mais prosaicos. Entregar ao UP as pastas do Trabalho, Assuntos Sociais e outras, que significam a grande maioria da despesa pública, “complicaria o cumprimento dos objectivos do défice e de redução da dívida pública exigidos por Bruxelas”. Uma escalada maximalista pelos ministros do UP seria travada pela ministra da Economia: aqueles seriam os “bons” e os socialistas os “maus da fita”.

Como “acordar os desacordos”? Em certas áreas é muito problemático. A primeira prova de fogo seria a política catalã após sentença, em Outubro, dos líderes secessionistas. A relação de confiança em “questões de Estado” é muito baixa. PSOE e UP não o SPD e a CDU alemães.

Há outras razões. Por mobilizadora que seja a ideia de “coligação das esquerdas”, o PSOE não quer perder o contacto com o centro, mesmo se ele está de momento suspenso. Depois, o UP não tem mandatos parlamentares que assegurem a investidura. Se tivesse, teria outro peso para impor exigências. Nas termos actuais, a “coligação de esquerda” continuaria condicionada pelos independentistas catalães e bascos.

Quem é “o guardião das essências da esquerda”? PSOE e UP são herdeiros de tradições políticas distintas. “O meu partido tem 140 anos de História, governou muitos anos e as reformas que o senhor propõe são as que o PSOE pôs em marcha. Não queremos ter ao lado um polícia para nos vigiar”, replicou Sánchez a Iglesias no debate, enquanto o segundo o acusava de não querer a coligação: “Dissimule um pouco, senhor Sánchez, diga alguma coisa de esquerda.”

O mais importante de tudo: o PSOE não abdica de ser o partido de referência da esquerda. “Está em jogo o monopólio da dimensão governamental da esquerda que o PSOE exerce desde 1977”, resumiu um jornalista. Pablo Iglesias, professor de Ciência Política e apreciador da Guerra dos Tronos, a que dedicou um livro intitulado Ganar ou morir, é um pensador do poder e não ignora nada disto.

A lógica política do UP consiste em alargar a sua influência no campo eleitoral da esquerda. O desígnio de Sánchez não é fortalecer o UP mas, ao contrário, enfraquecê-lo e limitar o seu espaço. Por tudo isto, a sua aliança é precária.