Chegou ao fim o projecto de dança RE.AL do coreógrafo João Fiadeiro

Performance de despedida é domingo, com a pianista Joana Gama e o coreógrafo a interpretarem Vexations, de Erik Satie, durante sete horas.

João Fiadeiro, fotografado em 2016
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João Fiadeiro, fotografado em 2016 MIGUEL MANSO

O coreógrafo João Fiadeiro ficará sem casa para o projecto de dança contemporânea RE.AL, em Lisboa, e a performance de despedida está marcada para domingo com a pianista Joana Gama.

“É claro na minha cabeça que é o fim de um ciclo”, afirmou João Fiadeiro à agência Lusa, numa altura em que se prepara para abandonar o edifício em Lisboa onde a companhia e ateliê RE.AL estavam instalados há 15 anos, porque o senhorio não quis renovar contrato.

João Fiadeiro, nascido em 1965, um dos nomes da renovação da dança contemporânea portuguesa, fundou a companhia RE.AL em 1990 que, em quase 30 anos de trabalho na investigação e interpretação, teve várias casas. Os últimos 15 anos foram passados num edifício onde João Fiadeiro desenvolveu um ateliê que servia de plataforma para a criação artística, investigação e programação transdisciplinar. “Já mudámos quatro, cinco vezes e agora é claramente um momento em que se vai mudar o paradigma. Não há em vista nenhum outro espaço”, disse.

Neste mês de Julho, a casa do RE.AL viveu “um projecto muitíssimo intenso de ocupação constante”, intitulado

Des

Ocupação, com performances, conversas e participação de cerca de 30 artistas que fizeram a história da companhia e ateliê.

O derradeiro espectáculo desta programação de despedida será feito neste domingo, já com o edifício vazio depois de vendido o recheio, com João Fiadeiro e a pianista Joana Gama a interpretarem a peça Vexations, de Erik Satie, durante sete horas, entre as 15h e as 22h. “Tinha o desejo de fazer uma performance final, mais solitária, da relação entre mim e a própria casa”, explicou.

João Fiadeiro, que se prepara para uma pausa, destinada a finalizar um doutoramento, identifica um momento decisivo na vida do RE.AL quando, em 2015, foi excluído dos apoios sustentados da Direcção-Geral das Artes e só foi informado da decisão seis meses depois, já com programação delineada. “Quando perdemos subsídio ficámos com vinte e tal anos de actividade e de criação de rede de cumplicidade e de afectos completamente destruídos, e agora, sem o espaço, mesmo que a gente queira continuar, é muito difícil. O que estou a fazer é aceitar o fim. Estou a fazer os possíveis para que seja uma celebração e não um lamento, isso para mim é muito importante”, afirmou o coreógrafo.

O bailarino fala de um “problema estrutural” na relação do poder público com os artistas: “Parece que é uma espécie de estética de precariedade, algo que impossibilita que o Estado se sinta ligado, mesmo que afectivamente, com os seus artistas”.

“Nós somos um produto de investimento do Estado que, num determinado momento, não somos contemplados com financiamento, há toda uma actividade que colapsa do dia para a noite e não há ninguém que se preocupe com isso”, lamentou.

No entender de João Fiadeiro, fica ainda por resolver que destino dar ao arquivo construído nestas três décadas. A Câmara de Lisboa cedeu um espaço temporário, no Polo das Gaivotas, para colocar o espólio do RE.AL. “Não há nenhum lugar apropriado, mesmo que eu queira doar, esse espólio para que possa ser tratado e disponibilizado para investigadores. É uma falha do sistema de inscrição e de atenção, que não existe”, explicou.