Quando a Armada britânica foi corrida à pedrada na praia da Rocha

A luta entre os cabreiros portugueses, armados com fundas, e os marujos ingleses é descrita como “uma cena grega”, em terras da “Villa Nova” de Portimão

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O cheiro das uvas e dos figos maduros —​ no tempo em que o Algarve não tinha ainda sido descoberto pelos turistas — entrava pela praia da Rocha adentro e punha os banhistas de nariz no ar. No século passado, pelos finais da monarquia — conta o escritor e antigo Presidente da República Portuguesa, Manuel Teixeira Gomes — os marujos da Armada britânica, em manobras pela zona, resolveram meter o dente na fruta alheia. Saíram-se mal da aventura. Um grupo de cabreiros armados com fundas correu com os invasores à pedrada. A batalha deu-se lá para as bandas da praia do Vau, onde o ex-Presidente da República Mário Soares tinha a sua casa de férias.

​O episódio, narrado no livro Agosto Azul, de Manuel Teixeira Gomes, portimonense, é designado por “uma cena grega”, ocorrida por meados do mês de Agosto do início do século passado. O escritor, que foi o 7º Presidente da República Portuguesa, relata: “Tinha chegado a Lagos uma grande esquadra inglesa — das últimas que ali vieram no tempo da monarquia”. A tripulação, nos períodos de lazer, entre passeios e banhos, entretinha-se a descobrir a zona costeira. Nos declives barrentos que vão da Ponta de João de Ourém [actual João de Arens] aos Três Irmãos de Alvor, diz o autor, criavam-se “talvez os figos mais gostosos, e as mais sumarentas uvas do mundo inteiro”. Por isso, na primeira oportunidade, os ingleses que por ali navegavam, atiraram-se “às figueiras e às vinhas, como se estivessem em país conquistado”. As autoridades portuguesas reagiram, em defesa da propriedade privada.

No entanto, os marinheiros não se deixaram intimidar —​ apenas mudaram de táctica. “A pretexto de exercícios de remos, passeios, e banhos, puseram-se a correr a costa para leste [para os lados da praia do Vau]”, para despistar os camponeses. Os locais toparam-lhes a manobra de diversão e organizam-se para dar “um bom castigo na marujama”. No plano de ataque, previam: “Vão ser corridos à pedrada, e sempre há-de ficar uma boa meia dúzia de mortos”.

De entre o grupo de atacantes, relata Teixeira Gomes, “já estão certos os melhores atiradores de funda”. Desde logo, ficara garantida a presença do “famoso Luís Sagreira dos Pegos Verdes e até o José Rijo de Monte Canelas, que onde põe a vista lá está a pedra; aquilo é capaz de partir com uma pedrada um cornicho da Lua...”. Porém, nem todos davam como garantida a vitória. O regedor da Mexilhoeira, lê-se, “que tinha toda a autoridade de homem viajado por ter andado na pesca do bacalhau, assegurava que, se por acaso matassem um inglês, não ficava pedra sobre pedra em dez léguas em redor”. Do lado português,  as munições eram “seixos do ribeiro do Farelo, todos escolhidos a dedo: do tamanho de ovos de perua, e mais pesados que chumbo”. O relato, inserido nas “Cartas a João de Barros”, foi escrito em 1928, quando Teixeira Gomes se encontrava em Blida (Argélia). “Havia trinta marujos, ao todo, nos dois batéis, que sem demora se despiram atirando-se a água, quase ao mesmo tempo, como rãs. Do meu posto, ouvia-se-lhes perfeitamente a algazarra, e até se lhes distinguiam as feições”. 

Os portugueses, emboscados, aguardaram o momento certo para lhes caírem em cima com uma “saraivada de pedras”, à saída da praia para o campo. O confronto saldou-se por um marinheiro ferido. Na precipitação da retirada, prossegue, foram perdidos alguns cestos de uvas que ficaram entornados na praia. Os portugueses, vitoriosos, “decerto completaram a obra dos ingleses, acabando a vindima”. A cena “grega” aproxima-se do fim. “Vinha anoitecendo do lado da terra; os algarvios, fartos de uvas, dispersam por caminhos diversos...”

As vinhas, nessa época, estendiam-se até à crista das falésias. Mudou, entretanto, a paisagem — calaram-se as sirenes das fábricas de conservas, implantou-se a indústria turística. A viragem começa quando as elites construíram os seus  chalets/vivendas para passarem férias na praia da Rocha. Mais tarde, ergueram-se as torres de apartamentos que alojam turistas em massa, a imitar o urbanismo que dominava no sul de Espanha. Das memórias da antiga “Villa Nova” de Portimão —​ sobretudo as que estão ligada à indústria conserveira —, restam as que foram resgatadas pelo museu da cidade, distinguido com o “Prémio Museu do Conselho da Europa 2010”. Manuel Teixeira Gomes, já  em 1904, criticava : “Essa tinha de chalés que desonra e conspurca a natureza, seja onde for que ela se arme nos moldes gregos”. O estadista estava longe de imaginar o que vira a acontecer 50 anos depois. Dessa época, que fez sobressair na arquitectura o gosto da aristocracia, restam apenas  o Hotel Bela Vista e mais um ou dois exemplares. E o tudo o resto mudou, ao sabor dos ventos da economia.

Ainda sobre a presença da Marinha inglesa, na baía de Lagos, o escritor refere no “Agosto Azul”, um quadro que, no mínimo, lhe fez despertar o olhar. O pescador que o acompanha, depois da visita ao navio de guerra britânico, descobre numa furna, “duas mulheres sentadas, dobrando os xailes com o jeito de quem se vai despedir”. Riem, “riem muito, a porfiar qual delas há-de primeiro despir a camisa”. “Foi a mais nova que se decide: mostra no torneado tronco dois meios limões agudos... “. O pescador ficou pasmado. “Vejo-o de braços abertos estendidos e as mãos abertas na atitude de quem pede silêncio, os olhos chamejantes e o sexo arrebitado”. A viagem prosseguiu até ao cais, sem incidentes.

Na mesma década, o escritor e jornalista João Arruda fez várias viagens pelo país e estrangeiro. Em Portimão, estranhou não encontrar peixe no restaurante do hotel onde se hospedou. Mas teve uma surpresa. “Ao alvor nos acorda o ruído de duas varinas, de perna nua e seios bamboleantes, que em atitude felina, mesmo sob as nossas janelas, pretendem disputar à unhada a aquisição de um cachucho”.

Na crise das exportações das conservas e dos frutos secos, durante a I Guerra Mundial, realiza-se no casino da Rocha (inaugurado em 1910), o “Congresso Regional Algarvio”, para discutir o futuro da região. Nesse encontro, Thomaz Cabreira defende a tese de que a região não poderia ficar fechada sobre si própria. “Os turistas que visitam a Andaluzia, em vez de irem e voltarem pelo mesmo caminho, percorreriam um anel que seria constituído pela seguinte forma: Medina del Campo, Madrid, Córdova, Sevilha (Cadiz e Tânger), Huelva, Faro, Setúbal, Lisboa, Coimbra, Pampilhosa, Salamanca e Medina”. A nível interno, defendia-se a criação de uma zona turística entre a praia da Rocha e Monchique. Motivo: “Os turistas tendem a estabelecer-se junto ao mar e nas montanhas”. O objectivo ainda não foi alcançado.