“Geringonça”, o “arranjo político” que até tem um anjo da guarda

Quatro anos depois, a inédita formação de Governo continua a inspirar autores. Desta vez, é a jornalista Inês Serra Lopes que dedica 227 páginas ao entendimento à esquerda que “começou quase como uma espécie de ‘usurpação’ do poder”.

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Capa do livro que chegou esta semana às livrarias,Capa do livro que chegou esta semana às livrarias Miguel Manso,Miguel Manso
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António Costa com PEdro Nuno Santos, descrito como o pivot da "geringonça" Rui Gaudencio
Pedro Filipe Soares
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Primeiro-ministro cumprimenta deputadas do Bloco de Esquerda Nuno Ferreira Santos
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Assinatura dos acordos bilaterais, neste caso com o BE DR
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Jerónimo de Sousa com António Costa na Assembleia da República Miguel Manso
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Assinatura dos acordos bilaterais, neste caso com o PCP DR

O livro começa com uma das muitas crises da “geringonça”, quiçá a última: a aprovação da proposta que reconhecia, na íntegra, a reposição do tempo de serviços dos professores e que gerou a ameaça de demissão do primeiro-ministro. “Foi um manifesto exagero a notícia da morte da ‘geringonça’”, conclui a autora da obra que chegou esta semana às livrarias e que é dedicada à solução de Governo inventada por António Costa, Jerónimo de Sousa, Catarina Martins e Heloísa Apolónia.

Em A Geringonça, Inês Serra Lopes, jornalista, dedicou-se a estudar aquilo que descreve como “uma tábua dos afogados para salvar socialistas, comunistas, verdes e bloquistas dos seus terríveis destinos”. Um “arranjo político” que “começou quase como uma espécie de ‘usurpação’ do poder” e que tem o actual Presidente da República como o seu “anjo da guarda” (capítulo 5).

“Havia assim, logo desde o início, uma questão de eventual falta de legitimidade do poder instituído. Foi Marcelo Rebelo de Sousa, ainda em campanha eleitoral, quem ajudou os socialistas a resolver esta questão e seguir em frente” ao referir, do “alto da sua dupla cátedra de professor de Direito Constitucional e de político experiente”, que “a legitimidade política resulta da maioria parlamentar”.

O capítulo dedicado a Marcelo termina a assumir que o papel do Presidente foi “tão importante na XIII Legislatura que muitos na direcção do PS defendem que o partido deverá, em 2021, apoiar indirectamente a recandidatura de Rebelo de Sousa, não apoiando qualquer candidato do PS”.

A autora conta a história da formação do Governo desde a noite das eleições legislativas de 2015. No capítulo 2, intitulado O milagre dos votos: perder as eleições e ganhar o Governo, recorda as principais declarações dos parceiros da “geringonça”, as reuniões, as cartas escritas a António Costa, o papel de Cavaco Silva (então Presidente), as posições conjuntas e até as críticas do próprio PS à solução encontrada. Mais à frente, enumera as vozes do contra e as brechas.

Serra Lopes, que há dez anos suspendeu a sua vida jornalística, depois de ter sido directora de jornais como O Independente ou Semanário Económico, assume o livro como sendo jornalístico, descritivo, factual. “Escrevo a introdução para situar este livro. Estamos, portanto assentes: esta ‘geringonça’ é um trabalho jornalístico”.

Nesse trabalho jornalístico, um protagonista que Inês Serra Lopes escolhe não ignorar é Pedro Nuno Santos, a quem designa por “negociador” e “pivot” das posições conjuntas. “O funcionamento, supostamente precário, da ‘geringonça’ depende do equilíbrio interno de cada uma das suas partes e da articulação dos seus diferentes acordos. Não basta assegurar que as peças estejam em perfeito estado de conservação, mas também que aquilo que as une se mantém em bom funcionamento. Estas frágeis ligações podem esticar, podem até encolher, mas não podem partir”, descreve a autora. “Manter o equilíbrio de todas as pequenas peças desta máquina complexa não é tarefa fácil. Durante quatro anos foi esse o trabalho de António Costa e de Pedro Nuno Santos”.

Sobre Pedro Nuno, pode ler-se em A Geringonça que nasceu em São João da Madeira no dia em que Jerónimo de Sousa fazia 30 anos, que tem um cartaz revolucionário na parede da cozinha, que teve um Porsche (e o pai um Maserati), mas, mais importante, “uma das suas características mais marcantes é a ambição”. Escreve Inês Serra Lopes que o actual ministro das Infra-Estruturas “não nasceu para ser deputado” e quer suceder a António Costa. "Naturalmente, tentará ser primeiro-ministro".

Depois da dedicatória e antes do índice, o livro começa com uma informação. “Os israelitas têm uma forma peculiar de designar os árabes – chamam-lhes ‘primos’. Por aqui, longe da Faixa de Gaza, os socialistas fazem o mesmo. Mais do que inimigos, menos do que irmãos, os membros do PCP, do BE e do PEV são ‘os primos’ que apoiam a ‘geringonça’”.

O futuro desta solução, que suscitou tanta curiosidade internacional, foi tratado por Inês Serra Lopes no final do livro. “Os resultados das eleições europeias mostram que o PS não tem possibilidade de alcançar maioria absoluta nas eleições legislativas. Mas, em compensação, que provavelmente poderá fazer uma ‘geringonça’ apenas com um dos primos”. Apesar disso, conclui a autora, se houver “geringonça”, o melhor é que esta volte a incluir os dois “primos".