Opinião

O livro é na escola: leitura e escrita no reino digital

Nada se pode comparar, em concentração e exigência, à leitura e ao convívio com a língua de tradição, essa que se opõe às “luzes impuras” da língua técnica.

A reboque de um recente programa da RTP, o Prós e Contras, em que o tema em destaque era a educação face a um novo paradigma pedagógico assente nos multimédia, creio ser oportuno deixar aqui alguns princípios dos quais a escola actual não poderá abdicar se quiser resistir contra aquilo a que, noutras ocasiões, tenho designado por “ditadura do banal”. Havendo alguns projectos de ensino cuja novidade pode fascinar quem se deixe iludir pelas propostas sempre moderníssimas neste reino de boas intenções que é a educação, confesso não partilhar do espanto e desse fascínio. Quando me falam de salas de aula onde há computadores pergunto-me sempre onde ficam os livros.

São muitas as razões que levam a que directores de escola e corpo docente acreditem que permitindo o acesso aos suportes informáticos (do iPhone ao tablet e outros de inúmera forma e feitio) as aprendizagens se consolidam. O primeiro argumento que usam é a esgotada crença de que, desse modo, os mais jovens ficam como que implicados e motivados para os conteúdos em presença. Não estou seguro de que assim seja. Se, num primeiro momento, a novidade do uso dos multimédia pode dar a impressão de que, na aula, serão novas e profundas as aprendizagens, a verdade é que as lições de Heidegger, ou de São Basílio de Cesareia, continuam vivas e actuais. No contacto com o texto é que o aluno pode descobrir universos de linguagem insuspeitados. Nada se pode comparar, em concentração e exigência, à leitura e ao convívio com a língua de tradição, essa que se opõe às “luzes impuras” da língua técnica. E, para que a História nos auxilie, recorde-se que os totalitarismos trazem sempre consigo o império da técnica, o léxico do empreededorismo. Queimar os livros ou, como hoje, querer reduzi-los a mera curiosidade de museu, isso mostra os caminhos sem retorno de regimes que, a pretexto da inovação, apagam a memória e a espessura cultural de que o humano tem de ser feito.

Byung-Chul Han, num livro essencial sobre este assunto (No Enxame – Reflexões sobre o digital, Relógio d’Água, 2016), considera, e bem, que nesta “sociedade do cansaço” que é a nossa, a circulação rápida das informações acelera, para além do capital, o modo como o sujeito pós-moderno (um projecto, mais que um sujeito, diga-se) se deixa penetrar por uma massa não filtrada de informações (as stormshits). Não raro esse dilúvio informativo é responsável pelas IFS (Information Fatigue Syndrom). Paralisia da capacidade analítica, ansiedade, incapacidade de assumir compromissos, foi David Lewis quem, em 1996, provou que esta doença psíquica deriva numa incapacidade de pensar. “O excesso de informação conduz à atrofia do pensamento”, dizia Byung-Chul Han.

Ora, uma escola que se transforme num lugar onde o pensamento é substituído pelo permanente fluxo de ícones é uma escola que despreza o seu passado e ignora a importância da palavra. Isto é: da linguagem. E não é disso mesmo que os professores hoje se queixam? Seja em que grau de ensino for, não estamos perante crianças e jovens, alunos do 1.º, do 2.º ou do 3.º ciclos, e do Secundário, ou até mesmo na Universidade, incapazes de seleccionar informação, de relacionar conceitos e factos? Não é evidente para quem lecciona que, desde há uns bons 15 a 20 anos a esta parte, os mais jovens carecem de um vocabulário alargado? Não é verdade que os textos expositivo-argumentativos, insertos no Exame Nacional de Português, põem a nu as fragilidades dos nossos jovens no que respeita ao saber histórico-cultural e à redacção de um discurso lógico? Os exemplos que elencam, na maior parte dos casos, não são simplesmente casos pessoais, redundando ora na superficialidade, ora no tom opinativo? Sem hábitos de leitura de textos de teor crítico-ensaístico, sem capacidades de inferência, sem o domínio dos mecanismos de coesão e coerência, e sem domínio referencial, não vemos o modo como falam e escrevem na escola e na Universidade? Não é tudo isto verdade? Ainda mal. É precisamente por isto que o computador em sala de aula deve ser usado com parcimónia e bom senso.

O paradigma de uma sociedade transparente, em que o privado tem de ser mostrado pois só assim se julga estarmos a fazer democracia, esse é um modelo erradíssimo quando aplicado à pedagogia e à vida social no seu todo. “O aumento da informação não é suficiente para esclarecer o mundo”, diz o filósofo sul-coreano, acrescentando: “A fadiga da informação é também responsável por sintomas que são característicos da depressão. A depressão é [...] uma afecção narcísica. É uma relação excessiva e patologicamente investida do indivíduo consigo próprio [...]. A percepção do sujeito narcísico-depressivo capta apenas o eco de si próprio [...]. O mundo surge-lhe como reduzido a variantes da sua pessoa.” (p.75).

Pois não é justamente esse naufrágio em si próprio que vemos acontecer a muitos dos nossos alunos, os quais não viveram na escola senão a mesma ideologia da estupidificação que vivem, em regra, no seu quotidiano? Que utopia existe na escola? Que ideal educativo? Que programa cultural pode elevar o nosso ensino a mais que a famigerada finalidade oca dos exames? As redes sociais, do Twitter ao Facebook, agudizam essa visão de mundo dependente de uma falácia perigosissíma para a educação: aceitar que a escola, para ser sedutora, deve reproduzir a sociedade digital que a rodeia. As massas de dados com que os alunos e professores, reféns desta ideologia do psico-poder, terão de lidar eclipsará o conhecimento (capacidade de análise), e pode mesmo minar a Democracia. Transformadas as instituições em lugares onde ao spectare latino ("spectare” é olhar para trás, pressupondo uma compreensão do tempo, da durée e da lentidão na leitura e na escrita) se sobrepõe o espectáculo, que escola é a nossa? A relação pedagógica deve estar ancorada naquele respeito (respectare) que eleva o aluno a um patamar de sujeito construtor de conhecimento. Quando a escola aposta no sujeito transformado em projecto cai-se na escola-espectáculo: digresssiva, ululante, sem um horizonte a que apontar e de que a civitas e não o sucesso deveria ser o farol. A escola, como outras instituições, sem respeito, decai e “Uma sociedade sem respeito desemboca numa sociedade do escândalo” (Han, 2016:13).

É por isso que o livro e a leitura e a escrita não podem ser postos de parte. As formas electrónicas devem estar ao serviço do livro impresso e da redacção. Ler implica anotar e sublinhar; exige tempo. Escrever é o fruto de um silêncio contemplativo (à letra: “construção do tempo") e é disso que a escola necessita: de tempo para ler e comentar por escrito; pensar a linguagem literária e transferir o saber literário para um discurso científico. Nessa aliança, a criança e o jovem não necessitam do computador em sala de aula, meio da excitação permanente dos sentidos, mas inimigo do Belo e da Consolação pelo Belo a que Steiner se tem referido. A perenidade do livro permanecerá, não duvido. O livro e a leitura da sintaxe e semântica de um dado idioma, é isso mesmo que pode impedir que o Mal da Banalidade vença a guerra da educação – nunca uma escola pensada para o imediato vingou. A leitura lenta e expressiva de um poema de Camões, a leitura comentada de um ensaio sobre a filosofia ou os belíssimos escritos sobre ciência e humanidades em Hegel ou Oppenheimer, em Einstein ou em Bento de Jesus Caraça, mesmo a análise de uma equação, não exige tudo isso ponderação e silêncio? Uma sala de aula com mil e um ecrãs... isso é convidar à indigência. A coacção do Google Glass elimina o respeito: essa distância sedutora que o aluno sente quando está perante o professor que ama os livros e não os ridiculariza em nome de qualquer espectáculo.