Os deploráveis

Hoje serão mais aqueles que olham para o bobo que Boris não tem problemas em ser, do que para o que significa um homem com as suas ideias e características chegar ao comando de um país como a Grã-Bretanha.

Foi um erro da campanha de Hillary Clinton, assumiu ela mais tarde no seu livro O que aconteceu: “Estou arrependida de ter dado uma prenda a Trump com o meu comentário sobre os ‘deploráveis’. Mas muitos apoiantes de Trump têm mesmo opiniões que eu considero ser – e não há outra palavra para o descrever – deploráveis.”

Hillary arrependeu-se e muitos criticaram a classificação por achar que ela reflectia a sobranceria de uma elite, que olhava para as opiniões racistas, sexistas e nacionalistas das plateias de Trump e as classificava de “deploráveis”. Talvez tenham tido razão, mas não custa pensar que ela provavelmente utilizaria o mesmo qualificativo para caracterizar alguém que a descreveu como “uma enfermeira sádica num hospital psiquiátrico”, que acha que as mulheres árabes se vestem como “caixas postais”, que a União Europeia impede a venda de bananas “com curvaturas anormais” ou que sendo legal o casamento de homossexuais não há razão para não consagrar uma união “entre três homens e um cão”.

O “deplorável” autor destas, e de muitas mais afirmações controversas, é Boris Johnson, eleito ontem líder dos conservadores britânicos e concomitantemente primeiro-ministro da Grã Bretanha. E de facto não é muito difícil metê-lo no mesmo cesto do presidente norte-americano, pelo seu perfil de polémico, por ter sido uma figura muito ligada aos media, mas muito especialmente por ter personificado, na campanha do “Brexit”, as forças mais conservadoras do seu país e a ideia de que existe uma mítica Grã-Bretanha que é possível recuperar e com ela enfrentar as pulsões da globalização. O mesmo mix de nacionalismo nostálgico dos dois lados do Atlântico.

No “deploráveis” de Hillary havia de facto esse gesto de desprezo que atendia mais ao carácter pouco qualificado da maior parte das opiniões dos seguidores de Trump do que à sua periculosidade. Da mesma forma que hoje serão mais aqueles que olham para o bobo que Boris não tem problemas em ser, do que para o que significa um homem com as suas ideias e características chegar ao comando de um país como a Grã-Bretanha.

Talvez também tenhamos que percorrer com Boris, a escala de consciencialização que muitos percorreram com Trump, do razoavelmente absurdo “lock her up” [“prendam-na”] dedicado a Hillary nas manifestações eleitorais, até aos berros racistas de “send her back” [mandem-na de volta] dirigidos às congressistas norte-americanas de cor, na última manifestação presidencial. A experiência já nos devia ter ensinado que há muito poucas razões para rir e sobram imensas para levar a sério os “deploráveis”.