Venezuela afectada por novo apagão

Pelo menos 18 dos 24 estados venezuelanos foram afectados. Ministro da Informação afirma que a causa foi um “ataque electromagnético”, sem no entanto atribuir responsabilidades.

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Pessoas caminham na rua à moite em Caracas, à luz de lanterna Reuters/CARLOS GARCIA RAWLINS

A Venezuela voltou no início da noite desta segunda-feira a sofrer um apagão em pelo menos 18 dos seus 24 Estados. A capital, Caracas, foi uma das áreas afectadas. É o quarto apagão num ano. O regime de Nicolás Maduro afirma que a causa foi um “ataque electromagnético”.

O ministro da Informação venezuelano, Jorge Rodríguez, afirmou três horas depois de ter começado que foi causado por um “ataque electromagnético” e que as autoridades estão a trabalhar para restabelecer a electricidade. “Aqueles que sistematicamente atacam o nobre povo da Venezuela de todas as formas possíveis serão mais uma vez confrontados com a dedicação e coragem que nós, filhos do libertador Simón Bolívar, demonstrámos perante dificuldades”, disse Rodríguez num anúncio televisivo.

Entretanto, as escolas foram encerradas e os venezuelanos não foram trabalhar ao ser declarado ‘feriado’ para esta terça-feira - medida também posta em prática em apagões anteriores. “A menos que algo o exija com urgência, recomendamos que fiquem em casa”, escreveu no Twitter o governante.

Não foram dados mais pormenores sobre o “ataque” nem a quem o Governo de Nicolás Maduro atribui as responsabilidades, mas em apagões anteriores atribuiu-as à oposição de direita e aos Estados Unidos, que negaram as acusações.

Entre as infra-estruturas afectadas encontram-se o abastecimento de água, telecomunicações, transportes e hospitais e centros de saúde. Por exemplo, 94% das infra-estruturas de comunicações foram afectadas, com a internet a estar apenas acessível em apenas 10% do país, de acordo com o Netblocks, organização não-governamental que se dedica a monitorizar interrupções de comunicações, referida pela CNN.

“Isto é horrível, um desastre”, disse à Associated Press Reni Blanco, professor de 48 anos, enquanto se juntava a uma multidão que tentava chegar a casa antes do anoitecer. “Sem electricidade não temos nada”, complementou María Teresa González, referindo-se à comida que tem no frigorífico e que se irá estragar.

alguns meses, em Março e Abril, o país latino-americano sofreu três apagões, um dos quais durou uma semana. As ruas venezuelanas ficaram num caos: lojas encerradas, transportes públicos parados, acesso limitado à água e tratamentos médicos cancelados. A já de si frágil economia venezuelana sofreu um forte abalo.

Maduro acusou a oposição de direita e os Estados Unidos de estarem por detrás dos apagões, de sabotarem a rede eléctrica para forçar a sua saída do poder. Mas também por Washington ter imposto duras sanções a Caracas, impedindo-a de renovar a rede eléctrica. Para Maduro, este novo apagão é um “ataque criminal contra a tranquilidade e a paz da pátria”.

Por sua vez, o autoproclamado Presidente da Venezuela, Juan Guaidó, atribui a responsabilidade ao regime de Maduro por anos de negligência, corrupção e desinvestimento na rede eléctrica. “Tentam esconder a tragédia com racionamentos por todo o país, mas o fracasso é evidente: destruíram o sistema eléctrico e não têm soluções”, acusou no Twitter. “Amanhã, com força, vamos à reunir-nos na rua. Os venezuelanos não se vão acostumar a este desastre”, desafiou.

Há meses que a Venezuela vive numa situação de constante instabilidade política e aprofundamento da crise económica. Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, foi reconhecido como Presidente por mais de 50 países, entre os quais os Estados Unidos, em desafio a Maduro. O líder da oposição disse considerar "todas as opções necessárias", inclusive uma intervenção externa, para pôr fim ao regime chavista e tem apostado as suas fichas na conquista dos militares, um dos pilares do regime. Mas não teve sucesso entre as mais altas patentes das Forças Armadas venezuelanas e, hoje, vive-se um impasse político. 

Entretanto, a crise económica não dá sinais de estar a melhorar. O país rico em petróleo confronta-se com uma crise de hiperinflação que retira poder de compra aos venezuelanos, a par do embargo económico norte-americano. Os supermercados têm cada vez mais estantes vazias e o mercado negro prospera. Em consequência, e segundo as Nações Unidas, mais de quatro milhões de venezuelanos abandonaram o país desde 2015.

Em Maio, representantes de Maduro e Guaidó reuniram-se em Oslo, na Noruega, para negociações preliminares, mas sem sucesso. No início do mês, os dois lados anunciaram voltar a sentar-se à mesa para discutir soluções para desbloquear a crise política venezuelana, e as negociações têm-se sucedido de semana a semana. 

Maduro conta com o apoio da Rússia e da China no Conselho de Segurança das Nações Unidas e para as necessidades mais prementes – por exemplo, Moscovo enviou para o país latino-americano 100 toneladas de medicamentos e admite reforçar o Exército venezuelano. Moscovo e Pequim têm dissuadido qualquer hipótese de intervenção externa na Venezuela. E, no confronto entre as grandes potências, a Venezuela é um novo campo de batalha

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