Morreu Art Neville, músico que ajudou a definir o funk de Nova Orleães

Aos 81 anos, morreu Art Neville, vocalista e teclista co-fundador de The Meters e The Neville Brothers e responsável por dar a voz a Mardi Gras Mambo um dos principais temas do carnaval de Nova Orleães.

,Os irmãos Neville
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Flickr/Art Neville/The funky Meters

“Podem levar-me para palco numa ambulância”, dizia Art Neville em entrevista, em 2013, ao The Times Pacayune. Neville, um dos músicos que ajudaram a definir a sonoridade musical da cidade de Nova Orleães, morreu esta segunda-feira aos 81 anos. “Dêem-me um microfone e um espelho para que possa ver as pessoas… Eu fiz isto toda a minha a vida e gosto, até das partes más”, lê-se ainda na entrevista. Tinha apenas 16 anos quando gravou Mardi Gras Mambo, um dos maiores hinos do carnaval de Nova Orleães. A notícia da sua morte foi confirmada pelo seu agente de longa data. “Faleceu em casa junto à sua adorada esposa Lorraine. Neville viajou por todo o mundo inúmeras vezes, mas voltava sempre para Valence Street”, referindo-se ao local, em Nova Orleães, onde o músico viveu grande parte da sua vida.

O teclista e vocalista ficará recordado como co-fundador dos The Meters, grupo que misturava funk, soul e jazz, que se revelou património riquíssimo para a história do hip hop e que é citado como uma referência por bandas como os Red Hot Chili Peppers, Phish e os Galactic. Se Professor Longhair foi aquele que incorporou em si toda a diversa tradição musical de Nova Orleães, se um dos seus discípulos, Dr. John, foi o responsável por levar essa tradição à modernidade psicadélica da década de 1960, os The Meters destilaram todo esse caldo cultural no funk cru e suado, vibrante, que, por força dos oito álbuns que editaram entre 1969 e 1977 e do trabalho enquanto banda residente da editora do histórico Allen Toussaint, passou a ser outra componente indispensável da tapeçaria musical da cidade. Ao fim dos The Meters, sucedeu em 1977 a criação dos The Neville Brothers, juntamente com os seus irmãos.

A carreira musical de Art Neville começou em 1953 com os The Hawketts, combo de rhythm'n'blues, grupo com quem gravou Mardi Gras Mambo, em 1954. No entanto, apenas retomou a sua carreira seis anos depois de ter sido chamado para servir no Exército. Quando regressou aos Estados Unidos, no início dos anos 60, gravou algumas faixas e deu inúmeros concertos a solo, sob o nome Art Neville and the Neville Sounds. Em 1968, rebaptizou esta banda como The Meters e, no ano seguinte, lançaram o seu álbum homónimo de estreia, que continha Cissy Strut, uma das faixas mais conhecidas da banda. Em 1974, editaram Rejuvenation, considerado um dos seus álbuns de maior sucesso e que apareceu em 138.º lugar na lista dos 500 Melhores Álbuns da revista Rolling Stone.

Os The Meters terminaram em 1977, devido a frustrações ligadas ao seu pouco sucesso comercial, a conflitos internos e ao abuso de substâncias de alguns membros da banda. Enquanto The Meters, foram abertura dos Rolling Stones em várias tours pela América e na Europa e ainda actuaram na festa de lançamento do álbum Venus and Mars, dos Wings de Paul McCartney. Art, mais tarde, veio a formar, juntamente com os seus irmãos, os The Neville Brothers. Apesar de, tal como os The Comets, nunca terem atingido um grande sucesso comercial, os membros do grupo eram vistos como heróis locais e alvos de inúmeros elogios por parte da crítica, algo que se viria a traduzir num Grammy para melhor performance instrumental pop em 1989 pela faixa Healing Chant, do álbum Yellow Moon. Dez anos depois, o conjunto voltava a ser nomeado para este prémio, na categoria de melhor performance vocal de R&B tradicional, pelo seu álbum Valence Street. Art ainda venceu um segundo Grammy, melhor performance de rock instrumental, pela sua contribuição na faixa SRV Shuffle, um tributo ao músico Stevie Ray Vaughan.

No início dos anos 2000, Art ressuscitou os The Meters devido a uma nova vaga de bandas que os citavam como influência. A verdade é que a sua presença nunca deixara de se manifestar, com a música da banda a ser samplada abundantemente ao longo da história do hip hop (N.W.A., A Tribe Called Quest, J Dilla, Public Enemy, Ice Cube, Tupac Shakur, Cypress Hill ou Beastie Boys são apenas alguns entre os muitos que recorreram ao som dos Meters nas suas criações). Em Julho de 2018, a banda acabou por ser laureada com um Grammy Lifetime Achievement Award, mas Art não foi à cerimónia, sendo representado pelo seu filho Ian. Semanas mais tarde, os The Meters viriam a entrar numa nova pausa devido a complicações na saúde do músico. Em Dezembro de esse ano, Neville acabou por anunciar a sua reforma oficialmente, passando os seus últimos meses na sua casa em Valence Street com a sua família e amigos.

“Eu não fiz muito dinheiro”, disse em 2013 ao The Times Pacayune. “Mas nada disso interessa. A minha vida é feliz, eu sou feliz e as pessoas perto de mim estão felizes. Não te preocupes com a outra parte.” Esta morte é um duro golpe para a comunidade musical de Nova Orleães que viu partir este Verão Dr. John e Dave Bartholomew.