Vai haver uma nova Expo na zona ocidental entre Lisboa e Oeiras

O investimento ascende a 300 milhões de euros e prevê a construção de vários edifícios para investigação em ciências do mar, formação, restauração, hotelaria e outros serviços na zona ribeirinha entre Lisboa e Oeiras.

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RG Rui Gaudencio - Publico

A zona ribeirinha que vai de Pedrouços (concelho Lisboa), logo a seguir à Fundação Champalimaud, e a Cruz Quebrada (Oeiras) vai ser alvo de um megaprojecto de requalificação urbana, num investimento que ascenderá aos 300 milhões de euros, entre fundos públicos e privados. O Campus do Mar (ou Ocean Campus), que abrangerá 64 hectares na foz do Tejo, foi apresentado nesta segunda-feira na antiga Docapesca durante a inauguração da nova “Ciclovia do Mar”, que irá ligar a o Parque das Nações a Oeiras.

O projecto, que arranca este ano, tem data de conclusão para 2030 mas será feito em três fases. Chamam-lhe a “nova Expo” e será financiado a 75% por privados, 2% virão de fundos públicos e 25% será investimento público-privado. Prevê uma marina na foz do Jamor - que estava incluída no projecto Porto Cruz, do grupo imobiliário ​SIL, que tem sido muito contestado pela população, porque prevê a construção de um megaempreendimento nos terrenos da antiga fábrica da Lusalite com várias torres de habitação, comércio, serviços, estacionamento e um hotel, na margem direita do rio Jamor.

O projecto agora apresentado prevê também a construção de hotéis, restaurantes e centros ligados à investigação ligada às ciências do mar - suportadas com investimento privado.

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Apesar das construções previstas, o espaço da zona ribeirinha, aponta a ministra do Mar Ana Paula Vitorino, “não é para construir torres”. O objectivo é criar, através também de concessões privadas e investimento, espaços para uso público e que beneficiem a vida e experiência de quem vive e visita as zonas incluídas no projecto.

A primeira fase de intervenção, cuja conclusão está prevista para 2022, contará com um investimento de 118 milhões e incidirá exclusivamente nas áreas onde já há construção, que será requalificada. Da lista consta a adaptação de edifícios para a criação de laboratórios do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, a criação de residências temporárias para investigação (bem como centros de investigação) e a criação de espaço para empresas, incluindo startups.

Às outras duas fases (de 2022 a 2026 e de 2026 a 2030) correspondem investimentos de 152 milhões e 30 milhões, respectivamente. A maior fatia vai para a construção de um hotel privado (cerca de 38 milhões de euros) na Cruz Quebrada e de um Espaço Empresarial/Centro de Investigação também privado (cerca de 37 milhões de euros) logo a seguir à zona onde decorre o Nos Alive na direcção da foz do Jamor, ambos integrados na segunda fase do processo.

"O mar continua a ser tema do passado"

Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, sublinhou que a concretização deste projecto “actuará como catalisador da dinâmica de conhecimento” nesta zona, anunciando ainda que as praias de Algés e da Cruz Quebrada serão requalificadas, estando a trabalhar para a atribuição da bandeira azul nas praias de Paço de Arcos e de Caxias.

Segundo disse o autarca na apresentação do Ocean Campos, o Porto de Lisboa não tem planos para o crescimento da actividade portuária no troço da orla ribeirinha de Algés à foz do Jamor, o que permitirá ao município “consolidar um eixo de recreio, lazer e turismo, integrando pólos de investigação científica e desenvolvimento tecnológico de referência a nível internacional, concretizados em edifícios icónicos, símbolos visíveis da economia do conhecimento, marcos na paisagem da entrada da barra do Tejo”. Ainda em Maio do ano passado, em entrevista ao PÚBLICO, Isaltino Morais expressava a vontade de desenvolver a zona de Paço de Arcos, transformando-a na “Saint-tropez” de Portugal. O autarca idealizava a construção de uma nova marina, nessa zona, que se iria juntar à de Oeiras e à da Cruz Quebrada, ainda por construir.

Já Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, apontou o Ocean Campus como uma possibilidade para “resolver ou avançar com o dilema que o país tem com o mar”, numa zona que se encontra “há várias décadas com o seu desenvolvimento adiado”.

Também para a ministra do Mar, o projecto surge como uma “medida fundamental” na prossecução do objectivo de voltar a ligar Portugal ao mar sem ser apenas numa lógica de praia e sol: “Para a maioria do país o mar continua a ser tema do passado, dos livros de história. Dos feitos dos antigos e do antigamente. Da nostalgia e do fado. O que ajuda a explicar as décadas de costas voltadas para o mar. O que ajuda a explicar tanta e tanta gente que ainda se interroga sobre a utilidade de um ministério do mar e para o mar”.

Investigação e formação: um campus para as Ciências do Mar

O futuro complexo dedicado ao mar pretende “agregar, sob a temática do mar, vários organismos, serviços e instituições públicas, pólos universitários, laboratórios de investigação, unidades âncora para desenvolvimento de novos modelos de relacionamento” e criar, em simultâneo, um “Campus de ID&I internacional de actividades ligadas ao mar, recuperando um espaço forte de memória portuária”.

A sua execução pretende, segundo o Governo, posicionar Portugal como uma “referência internacional nos domínios da ciência, da I&D e da tecnologia no que respeita às Ciências Marítimas e à Economia Azul”.

A criação de uma escola superior para cursos relacionados com as Ciências do Mar, chamada Blue Business School, integra a segunda fase do processo e conta com 27 milhões de euros em investimento privado. Segundo a ministra do Mar, “existem contactos a nível internacional para a escola ser gerida e a formação ser ministrada por redes internacionais. Não queremos uma escola que seja concorrente das que já existem, queremos concentrar os saberes e projectos que já estão a ser desenvolvidos por universidades públicas e privadas portuguesas e instalar redes de parcerias com estrangeiros”. Países como a Noruega, o Canadá ou a China já demonstraram interesse em estabelecer parcerias, adiantou.

Neste projecto, conta-se também a criação de edifícios para restauração e hotelaria. Segundo as previsões, a receita anual será de 6,8 milhões de euros. O processo de avaliação de impacto ambiental do Ocean Campus foi lançado a 5 de Junho deste ano, cujos resultados não são ainda conhecidos.

Texto editado por Ana Fernandes