Crítica

Queriam vê-lo KO, mas Gilberto Gil está OK

Com um pé no Brasil de hoje e os olhos no futuro (e na família), Gilberto Gil desfez ódios alheios em festa e mostrou, se preciso fosse, que ainda é uma das referências do génio musical brasileiro. Foi em Lisboa, no CCB, antes de actuar em Aveiro.

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Gilberto Gil e a sua banda no CCB (atrás dele, os filhos Nara e José, esta nas percussões) PEDRO BERGA

Numa sala onde já tocou por mais de uma vez, a solo ou com banda, o Centro Cultural de Belém (CCB), Gilberto Gil apresentou sexta-feira 19 de Julho o seu mais recente trabalho, OK OK OK. E a sala lisboeta, praticamente cheia (embora não esgotada), respondeu com agrado à “oferta”. Antes de rumar Europa dentro, com concertos marcados na Alemanha, na Bélgica, em França, na Suíça e na Noruega, Gil mostrou em Portugal (depois de Lisboa actuou no Festival dos Canais em Aveiro, no dia 20) o apelo do novo disco. Onde enfrenta, pela música, a agressividade dos discursos de ódio, discorrendo sobre o amor da família, o sentido da vida, a velhice e o futuro, numa dimensão por onde espreita a religiosidade.

Com uma banda de oito elementos, onde três dos seus filhos (Bem Gil na guitarra, José Gil nas percussões e na bateria e Nara Gil nos coros) se juntam a cinco músicos de craveira (Domenico Lancellotti também nas percussões e bateria, Bruno Di Lullo no baixo, Danilo Andrade no piano, Diogo Gomes e Thiago Queirós nos sopros), Gil abriu o espectáculo com o inevitável OK OK OK, canção-manifesto onde responde aos que o atacam ou idolatram não respondendo; porque respostas categóricas e vibrantes nos dias de hoje são sobretudo uma negação do pensamento. Por isso, a canção termina assim: “OK, OK, OK, OK, OK, OK/ Sei que não dei nenhuma opinião/ É que eu pensei, pensei, pensei, pensei/ Palavras dizem sim, os fatos [os factos] dizem não.” Gil disse ser uma “canção de intervenção, como em Portugal”, ou “canção de protesto”, no Brasil.

Depois vieram a saúde, a família, os amigos: Quatro pedacinhos, nascida de uma biópsia a que foi submetido; Sereno, saudando um novo membro da prole, recém-nascido; Lugar comum, tema mais antigo filosofando sobre o sentido da vida (com música de João Donato, Gil escreveu em 1974 esta letra que, como ele disse no livro Todas As Letras, editado em 1996, reafirma a sua “obsessão com o eterno retorno, com o sentido yin-yang da realimentação, do imbricamento vida-e-morte e da polaridade dos contrários”); Lia e Leia, sobre duas meninas que lhe pediram uma canção e que acabaram juntas neste título; e Yamandu, dedicada a Yamandu Costa, que Gilberto Gil ali descreveu como “um violonista extraordinário”. Tudo isto com Gil ao violão e toda a banda em palco. E foi ainda ao violão que, agora sozinho (com uma ausência tácita da banda), ele cantou Se eu quiser falar com Deus, em memória do mestre João Gilberto, que morreu em 6 de Julho.

Depois, Gil trocou o violão pela guitarra eléctrica (viria a ser mais do que uma, ao longo da noite) para, num balanço funk, cantar Na real (do disco novo), daí derivando para outras canções, de diferentes épocas: Seu olhar, primeiro; depois Tocarte (do espectáculo Trinca de Ases, com Gal Costa e Nando Reis, que também veio a Portugal) e Drão, que ele explicou ter sido escrita quando o seu segundo casamento [com Sandra Gadelha, de apelido Drão, e daí o título] chegou ao fim.

A entrada (anunciada no programa) da cantora Roberta Sá, que está a fazer esta digressão com Gil, trouxe dois efusivos duetos, melodioso e terno em Afogamento, ritmado e bem baiano em Giro. Foi então que a família Gil cresceu em palco: uma neta do cantor, Flor Gil, com 10 anos, surgiu a cantar Goodbye my girl, versão em inglês, escrita por Gilberto Gil, do tema No norte da saudade, original de Moacyr de Albuquerque e Perinho Santana. A audiência aderiu à “novidade” e à festa, aplaudindo a menina perante o embevecimento do avô, partilhado em particular por Roberta Sá.

Perto do fim, uma exaltação de dois blocos baianos, o Ilê Ayê e o Olodum, respectivamente em Ilê Ayê e Nossa gente (avisa lá), seguida desse quase-manifesto que é Marginália II (gravada por Gil com Os Mutantes em Frevo Rasgado, de 1968) e de Andar com fé (de 1982), bom intróito para Ouço, do novo disco (“Ouço/ Todos os corações do mundo/ Batendo”) e para o irresistivelmente dançante Maracatu atômico, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, que Gil gravou em 1973 e que outros conhecerão de uma versão mais recente, a de Chico Science e Nação Zumbi, em 1996.

Nos temas extra, um de título bem adequado: Extra. Assim: “Eu, tu e todos no mundo/ No fundo tememos por nosso futuro/ Eu e todos os Santos valei-nos/ Livrai-nos desse tempo escuro.” Foi escrito em 1983, mas podia ter sido escrito hoje, porque o “pedido de socorro” que encerra não se desactualizou. Nas palavras de Gil, no livro já citado, associa “as aparições descritas na Bíblia (o anjo Gabriel, as carruagens de fogo) a seres extraterrestres e discos voadores. (…) É uma espécie de oração, de pedido de socorro, de invocação aos céus, na expectativa de que a vinda do ET, assimilado a um santo, traga um melhoramento do ser humano e da vida no planeta Terra.”

E foi ao planeta Terra que Gil regressou, mais propriamente à sua Bahia natal para, fundindo funk e reggae, fazer reviver Toda menina baiana, a tal “que tem um jeito que Deus dá”. A canção (que Gil escreveu em 1979, tendo a seu lado a filha Nara, a mesma que agora ali fazia os coros) não é tão doce quanto aparenta, porque o Deus de que Gil fala (diz a letra) deu à Bahia a primeira missa mas também o primeiro índio abatido, o primeiro carnaval e também o primeiro pelourinho (e, com ele, a canção não o diz mas subentende-se, o sofrimento infligido aos condenados). Bem e mal, jeito e defeito, é o “que Deus deu, que Deus dá”. Na Bahia, como aliás por toda a parte.

Os aplausos cadenciados na audiência (de pé), a marcar o ritmo, bem como as palavras “Lisboa” e “Luanda” a aflorarem a letra da canção, dizem-nos que a Bahia são já muitos lugares. Para Gil (e a banda), num espectáculo que quis falar a Deus e aos humanos, é sinal de que está OK, não KO.

P.S.: Inicialmente, por erro de informação, escreveu-se neste texto que o concerto do CCB em Lisboa tinha sido o único que Gilberto Gil dera em Portugal nesta digressão, quando no dia seguinte, sábado, 20 de Julho, actuou em Aveiro, no Festival dos Canais, num concerto ao ar livre. Estava também errado o nome da neta de Gilberto Gil, Flor Gil (Bela Gil, o nome antes indicado, é o da mãe da menina). Um agradecimento aos leitores que, atentos, alertaram para tais erros (já corrigidos).