Carlos Pereira é a (improvável) escolha do PS-Madeira para São Bento

Direcção dos socialistas madeirenses indicou antigo líder para cabeça de lista à Assembleia da República, depois de um ano e meio de guerra aberta.

Carlos Pereira é o cabeça de lista do PS na Madeira
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Carlos Pereira é o cabeça de lista do PS na Madeira Homem de Gouveia/Lusa

O antigo líder do PS-Madeira e actual vice-presidente da bancada socialista em São Bento, Carlos Pereira, é o nome indicado pelo Funchal para encabeçar a lista regional do partido às legislativas de Outubro. Mas não foi uma escolha óbvia. Longe disso.

A distância entre a actual direcção dos socialistas madeirenses e o deputado era, até há bem pouco tempo, colossal. Um oceano a separá-los, que foi alimentando pela disputa eleitoral de Janeiro do ano passado, onde numas eleições internas divididas, Emanuel Câmara destronou Carlos Pereira da liderança do PS local.

Muito foi dito de parte a parte. Antes, e depois de Emanuel Câmara, o autarca do Porto Moniz, uma pequena vila no Norte da ilha, ter ganho o partido com 57% dos votos, contra 43% de Pereira.

Falou-se de “chapeladas”. De mentiras e “mentirosos”. De “barrigas de aluguer”, “divisionismo” ou “assaltos ao palácio”. Houve queixas no Tribunal Constitucional. Uma providência cautelar. Ameaças de expulsão do partido. Uma guerra aberta que não arrefeceu mesmo depois de contados os votados que legitimaram, internamente, o projecto de Câmara para o partido: candidatar Paulo Cafôfo, o independente que poucos meses antes tinha sido eleito para um segundo mandato na presidência do Funchal, a presidente do governo madeirense.

Carlos Pereira, que tinha suspendido o mandato na Assembleia da República para assumir o lugar no parlamento madeirense, saiu derrotado mas não convencido. Regressou a Lisboa, de onde a espaços foi criticando o programa e a estratégia da direcção socialista a quem apontava a falta de visão para a região autónoma.

A resposta do Funchal veio em Março deste ano. Emanuel Câmara terá comunicado à direcção nacional do partido que tanto Carlos Pereira como Luís Vilhena, que foi segundo na lista em 2015, não iam continuar em São Bento. A ideia seria rejuvenescer a lista – falou-se do nome de Olavo Câmara, líder da JS-Madeira e filho de Emanuel Câmara, que acabou por ir em segundo –, a exemplo do que aconteceu para as Europeias.

Para o Parlamento Europeu, o PS-Madeira indicou Sara Cerdas (foi eleita em sexto lugar) por troca com Liliana Rodrigues, e as coisas não correram nada bem. Os socialistas – que estavam em crescendo nas sondagens – viram o PSD ser o partido mais votado no arquipélago, e por larga vantagem: 37,15% para os social-democratas e 25,81% para o PS.

“Um partido desunido não ganha eleições. É preciso que a direcção do partido saiba encontrar um caminho para a unidade do PS-Madeira, até porque estou convencido que nenhum militante está indisponível para participar numa solução para o Partido Socialista”, comentava em Maio Carlos Pereira, ao jornal online Funchal Notícias.

O PS, que tem na Madeira um histórico de divergências internas que o PSD tem sabido explorar ao longo dos anos, teve que reposicionar-se. Outra vez. “Independentemente das divergências que existiram no passado, naturais na sequência de uma disputa interna tão intensa como a que aconteceu num partido democrático como o nosso, a decisão de escolhermos Carlos Pereira como cabeça-de-lista à Assembleia da República é o resultado da união de esforços de todos os socialistas”, argumenta ao PÚBLICO o secretário-geral do PS madeirense, João Pedro Vieira, dizendo que esta escolha é sinal de “maturidade democrática” e deixa “feliz” a direcção do partido.

Estamos unidos, continua João Pedro Vieira, em prol de um projecto de verdadeira mudança para a Madeira, que queremos que se concretize já em 2019, e que passará também pelo Parlamento.

Também Carlos Pereira fala em “maturidade” e “responsabilidade”, e sublinha a importância de que “todas as sensibilidades” se possam rever no caminho que o PS-Madeira está a construir. “A construção de uma solução exige um debate e o estabelecimento de uma visão comum, independentemente de não ser fundamental um unanimismo obsessivo”, diz, admitindo que nesta aproximação existem “linhas vermelhas” que ambos (a direcção e ele) conhecem.

“O mais importante de tudo foi não gerar obstáculos inultrapassáveis. Fomos bem sucedidos”, realça, acrescentando ser “óbvio” que vai envolver-se na campanha para as regionais. “O PS-Madeira é um único partido, não haverá campanhas paralelas ou joguinhos das escondidas.”

Certo é o comprometimento da direcção nacional do partido com a campanha na Madeira. A rentrée política do PS vai este ano decorrer no Funchal, com a presença de António Costa e demais dirigentes nacionais socialistas.