Editorial

Trump: o racismo está a ficar mainstream

O que o populismo de extrema-direita nos impinge como ideologia mais perigosa é o medo de estarmos a ser invadidos e atacados por hordas de imigrantes ameaçadores e terroristas, que põem em causa a nossa cristandade.

A expressão “voltem para a vossa terra”, com que racistas e xenófobos exibem alegremente a sua boçalidade, chegou à Casa Branca. O homem branco que preside a um país como os EUA deve estar convencido de que a cidadania de alguém depende não do local de nascimento ou da nacionalidade adquirida, mas sim da cor da pele ou do facto de estas quatro mulheres serem hispânicas, negras e muçulmanas.

Os comentários de Donald Trump sobre quatro congressistas do Partido Democrata, que se lhe têm politicamente oposto com veemência, são de um racismo primário, assente numa mentira descarada: todas as congressistas insultadas têm nacionalidade norte-americana e o pormenor de uma delas ter nascido na Somália é um mera nota de rodapé que o inquilino da Casa Branca quer transformar num risco assustador.

Sadiq Khan, o sensato presidente da Câmara de Londres, resumiu bem a alarvidade: “Já tinha ouvido racistas e fascistas a dizerem isso, mas nunca o tinha ouvido de um político do mainstream.” Este discurso de ódio, num país que tem mais armas do que habitantes, terá as suas consequências e o mais provável é que se espalhe por entre os Orban que pululam por todo o lado, tornando-se, enfim, mainstream. Trump não esconde as suas simpatias pela causa do supremacismo branco, como se percebeu pelos ataques de Charlottesville, Vírgina, que vitimaram manifestantes contra uma organização que exibia símbolos nazis e que proclamava: a “América está a ser atacada”.

O que o populismo de extrema-direita nos impinge como ideologia mais perigosa é o medo de estarmos a ser invadidos e atacados por hordas de imigrantes ameaçadores e terroristas, que põem em causa a nossa cristandade. Que isso seja dito a partir da Casa Branca, que antes de Trump foi ocupada por um homem negro, é a negação de todo o código de valores e historial do país do qual é Presidente (construído por imigrantes de todas as cores). Não, não estamos a ser invadidos. Olhe-se para a Europa: a percentagem de imigrantes entre os 500 milhões de habitantes da União Europeia é de 7%.

O tema tornou-se de tal forma dominante que assistimos com indiferença à matança de dezenas de imigrantes e refugiados num outro centro de detenção na Líbia ou à forma como a política migratória dos EUA viola os direitos humanos mais básicos. Passivamente, estamos a assistir a uma crise humanitária sem precedentes e para a qual a chamada “comunidade internacional” não tem e não quer ter qualquer resposta.