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A cerveja artesanal portuguesa deu um livro

Uma viagem pelo mundo da cerveja artesanal portuguesa, de Bruno Aquino e Domingos Quaresma, mostra este universo em expansão no nosso país.

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Nuno Ferreira Santos

Ainda não havia cerveja artesanal massificada em Portugal e os autores de Uma viagem pelo mundo da cerveja artesanal portuguesa já bebiam cerveja juntos. No início deste século, Bruno Aquino começou um site chamado Cervejas do Mundo, que entretanto deu origem a um fórum – hoje mais parado em detrimento de um grupo de Facebook – e começou a marcar, há mais de dez anos, encontros mensais de interessados em cerveja. Domingos Quaresma marcava presença.

Em 2008, o fórum organizou a primeira edição do Concurso Nacional de Cervejas Caseiras e Artesanais, que teve a sua sexta edição no ano passado. Nessa altura, havia só um ou outro sítio onde se pudesse beber algo diferente das hegemónicas Super Bock e da Sagres. Até à distribuição nacional da Sovina, em 2011, entretanto comprada pelos Vinhos Esporão, “não havia rigorosamente nada”, explica Bruno Aquino à Fugas, sentado com o seu co-autor na esplanada do Duque Brewpub, na Calçada do Duque, em Lisboa, que tem 12 torneiras de onde só jorra cerveja portuguesa. A conversa foi regada a Albino, uma white stout, e session IPA da série Acqua di..., todas de produção própria do Duque, bem como Cookin’ Weisse, uma berliner weisse da Musa.

Apesar de, como é explanado no livro, a legislação ser pouco favorável, há hoje cada vez mais microcervejeiras por todo o país, bem como bares especializados e não-especializados com uma oferta muito maior do que existia antes. A cerveja artesanal, que os autores definem como "pequena, independente, tradicional”, chegou definitivamente.

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É nesse contexto que surge o livro, editado pela Casa das Letras no final de Abril, o primeiro dedicado a esse tema em Portugal. O volume de pouco mais de 300 páginas pretende ser um ponto de entrada neste universo e começa por abordar a história da cerveja, tanto no mundo quanto em Portugal. Os capítulos incluem descrições dos vários estilos, escolas e famílias de cerveja, bases sobre como fazer cerveja, como e quando envelhecer cerveja, os vários tipos de copos e a que temperatura cada estilo deve ser servido, bem como ideias para harmonização com comida e receitas com cerveja.

Um dos segmentos principais envolve uma prova cega de várias cervejas, com a publicação 50 notas de prova, bem como uma introdução sobre o que se deve ter em conta quando se prova cerveja, de algumas das melhores cervejas nacionais. Ainda adicionam 15 sugestões de cervejas imperdíveis. Ao todo, para essa parte, provaram 157 cervejas, pedidas a produtores de Norte a Sul do país. “É uma fotografia já muito fiel do que é o mercado”, conta Domingos Quaresma, ainda que não seja total.

Domingos é entusiástico quanto aos resultados: “A escala que utilizámos é a mesma que se usa em concursos internacionais e temos cervejas que provámos com pontuação de 45 em 50. São cervejas de topo, temos três ou quatro, já é muito bom.” Acreditam que os cervejeiros que leiam as notas de prova poderão aprender a aperfeiçoar as suas criações, sendo que dizem ser necessária mais consistência e profissionalismo nas cervejas portuguesas. Até porque, como sublinham no livro, para eles só há uma cerveja que não pode ser aprimorada: a belga Orval, a clássica e multifacetada trapista. 

A aproximação recente das grandes cervejeiras industriais ao mundo artesanal, seja em termos de parceiras com microcervejeiras ou aproximações a estilos diferentes, poderá, escrevem os autores, ajudar os consumidores a perceberem que existe um mundo bastante vasto além daquilo que consomem desde sempre. O livro tece algumas críticas a esses gigantes, que, refere Bruno, às vezes “precisam de levar na cabeça”. Há um caso paradigmático: a Coruja, da Super Bock, que apresenta a técnica antiga do dry hopping, que consiste em adicionar lúpulo à cerveja a meio da fermentação, como “inovadora” e não algo já com historial em Portugal.

Domingos comenta: “Há uma parte em que as industriais estão a ganhar, que é na relação com a gastronomia e os chefs” que têm contratos com as grandes cervejeiras e não têm lugar para mais nada nos seus espaços. “É inadmissível irmos a um bom restaurante em Lisboa, pagarmos cem euros por uma refeição, pedirmos a carta de cervejas e olharem para nós como um extraterrestre”. É isso que eles, e o livro, querem ajudar a mudar.