Opinião

Calouste Gulbenkian, Amin Maalouf e nós

Como Amin Maalouf nos bem lembra, “não é o desespero que se deverá pregar, mas a urgência”. É tarde, sim. Mas não é demasiado tarde. Tenhamos a coragem de seguir em frente.

Comemora-se este ano o 150.º aniversário de Calouste Sarkis Gulbenkian, cuja vida permanece pouco conhecida do grande público. Multimilionário, requintado colecionador de obras de arte e grande amante da natureza, este homem de negócios de origem arménia construiu a sua fortuna no petróleo. Contemporâneo de Henri Ford, nos Estados Unidos, ambos mais jovens do que J. Rockefeller​ e Andrew Carnegie, os quatro protagonizam uma extraordinária geração de visionários e trabalhadores impenitentes, para quem os negócios e a riqueza não eram um fim em si mesmo, mas deveriam beneficiar toda a humanidade. Daí a ligação intrínseca entre fortuna e mecenato partilhada por estes magnatas e que os levou a desenvolver atividades filantrópicas, as quais, de resto, perduram até hoje graças ao seu legado.

Nascido em Scutari, em 1869, na época do Império Otomano, Calouste Gulbenkian passou a infância em Istambul onde frequentou a escola primária, tendo prosseguido os seus estudos secundários em Marselha. Mais tarde, no King's College, em Londres, estudaria várias matérias, como física, matemática, geologia e outras ciências aplicadas, que viriam a constituir o núcleo duro da engenharia mecânica, ramo ainda inexistente naquela época. Regressado depois ao Médio Oriente, Gulbenkian dedicou-se ao conhecimento aprofundado da indústria do petróleo nascente, tendo até efectuado uma visita de estudo aos campos petrolíferos da península de Apchéron, situados no actual Azerbaijão, da qual resultou uma curiosa publicação que revela não só o seu conhecimento e interesse multifacetado pela história, a cultura, os usos e costumes dos povos das regiões visitadas, a fauna, ou a flora, mas também o seu propósito de conhecer a fundo a indústria do petróleo, área em que acabou por se especializar e à qual dedicou toda sua vida em detrimento dos negócios familiares a que renunciou.

Em 1897 estabeleceu-se em Londres, mas nos anos vinte mudou-se para Paris, onde prosseguiu uma carreira fulgurante, não só como representante diplomático e comercial da Pérsia, mas também como o grande e temível nome de referência que dominou as negociações internacionais sobre o petróleo, incluindo as que incidiram sobre a partilha da cobiçada Companhia Petrolífera Turca. Calouste Gulbenkian impôs-se quer pelas suas qualidades de fino negociador, quer pelo seu apurado sentido de diplomacia, quer ainda pela extensa rede de contactos que desenvolveu pelo mundo fora.

Para além do empresário de sucesso, como se diria em linguagem actual, Calouste Gulbenkian era outrossim um grande apreciador de arte e um amante da natureza, manifestando uma enorme afeição pelas peças que ia colecionando ou ainda pela emblemática mata dos “Enclos” que adquirira na Normandia e onde ia regularmente mesmo quando, mais tarde, residia em Lisboa, onde se refugiara da guerra. A correspondência trocada entre 1946 e 1954 com o diplomata francês Alexis Léger, mais conhecido por Saint-John Perse, pseudónimo que utilizava como escritor, é a meu ver um dos mais belos testemunhos públicos do homem Calouste Gulbenkian. Ao longo das cartas trocadas, é a sua voz que finalmente se faz ouvir, são os seus pensamentos, sentimentos, opiniões e emoções que se exprimem, as suas interrogações que interpelam e os seus gestos que ganham sentido. Através do diálogo estabelecido entre os dois refugiados – A. Léger nos Estados Unidos, Calouste Gulbenkian em Lisboa, onde viria a falecer em 1955 –, descobrimos o quanto Gulbenkian foi um verdadeiro construtor de pontes entre mundos e épocas diferentes, em que se assistiu ao desmoronamento de sociedades inteiras e ao desafio para renascer dos escombros.

Este ano, celebramos o 150.º aniversário do nascimento de Calouste Gulbenkian, o qual, como bem sabemos, legou a sua fabulosa coleção de obras de arte e a sua fortuna colossal à Fundação com o seu nome. Em homenagem ao fundador, foi criado o Prémio Internacional dos Direitos Humanos Calouste Gulbenkian, cujo júri tenho a honra de presidir, e que será hoje entregue ao escritor e pensador franco-libanês Amin Maalouf.

A escolha de Amin Maalouf não poderia ser mais oportuna por várias razões. Primeiro porque Amin Maalouf e Calouste Gulbenkian pertencem ambos a uma região do mundo, que não é apenas um espaço geográfico ou um local de nascimento, mas que representa sobretudo um território cultural e civilizacional onde se emaranham passado e presente, filiações, afectos e emoções, receios, desespero e aspirações de futuro. Em segundo lugar, porque os dois são incansáveis construtores de pontes, figuras emblemáticas que cultivam o diálogo e a civilidade, que acreditam que “o respeito por uma cultura passa por encorajar o ensino da língua que lhe subjaz, por promover o conhecimento da sua literatura, das suas manifestações teatrais, cinematográficas, musicais, pictóricas, arquitetónicas, artesanato, gastronomia, etc.”, como Maalouf bem recorda em Um mundo sem regras (2009).

De resto, ao lermos todos os conselhos que um ansioso avô Gulbenkian prodigaliza ao seu neto sobre a sua educação e que foram objecto de uma publicação recente (A educação do Delfim, 2019), não restam muitas dúvidas de que Gulbenkian subscreveria estas palavras de Amin Maalouf, exactamente da mesma forma que o primeiro insiste no que chama “a dimensão moral da educação, o leme indispensável que assegura o equilíbrio do homem”.

Em terceiro lugar, porque nestes tempos conturbados e cheios de inquietações em que vivemos precisamos mais do que nunca de pensadores como Amin Maalouf para reforçar os alicerces da nossa casa comum “Europa” e mantê-la ancorada ao Mediterrâneo que tem sido desde sempre um lugar de encontros, intercâmbios e interacções entre culturas e civilizações.

Depois, porque Amin Maalouf testemunha uma imensa liberdade de pensamento e nos ensina a pensar sem preconceitos ou tabus sobre os impasses do nosso tempo, bem como sobre os desafios da convivência intercultural que as nossas sociedades enfrentam, ao abrir novas perspectivas e vias de diálogo e cooperação.

Uma outra razão ponderosa da bondade da escolha de Amin Maalouf para laureado do Prémio Gulbenkian Direitos Humanos 2019 deve-se ao facto de este ser uma das vozes mais poderosas e influentes do nosso tempo na procura intelectualmente corajosa, exigente e muito honesta do papel da universalidade dos direitos humanos na reconstrução de sociedades democráticas e inclusivas, seja no Ocidente ou nos países do Oriente Árabe, evitando, assim, o naufrágio das civilizações, para frasear o título da sua obra mais recente.

Resta, por último, mencionar um aspecto crucial do pensamento de Amin Maalouf, que é a batalha pela proteção do nosso planeta, considerada uma das mais sérias ameaças enfrentadas pelas civilizações. A este respeito, quero salientar o passo histórico, corajoso e precursor que a Fundação decidiu dar este ano, cortando o cordão umbilical que a ligava às actividades da indústria petrolífera, herança do fundador. Tal como no seu tempo, Calouste Gulbenkian foi um grande visionário antecipando o papel dos hidrocarbonetos na nova era industrial então emergente; com esta decisão, a Fundação seguiu-lhe no encalce, revelando deter uma visão de futuro e agindo em consequência.

Como Amin Maalouf nos bem lembra, “não é o desespero que se deverá pregar, mas a urgência”. É tarde, sim. Mas não é demasiado tarde. Tenhamos a coragem de seguir em frente.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico