Ambientalistas continuam a contestar localização do Marés Vivas

A associação de defesa do ambiente Campo Aberto escreveu uma carta aberta ao presidente da Câmara de Gaia a contestar a realização do festival no local actual devido aos danos que pode causar para a Reserva Natural Local do Estuário do Douro.

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A localização do festival tem vindo a ser contestada ao longo dos anos paulo pimenta

A Campo Aberto enviou esta sexta-feira uma carta aberta ao presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, apelando ao executivo municipal que, em 2020, seja escolhido um outro local para a realização do festival Meo Marés Vivas – que ocorre este fim-de-semana, em Vila Nova de Gaia. A associação de defesa do ambiente considera, segundo comunicado enviado à imprensa, que a localização do evento perturba a “fauna e a flora que o município se tinha comprometido e empenhado em salvaguardar ao ser criada a Reserva Natural Local do Estuário do Douro”. Para além disso, é uma zona contígua ao Parque de São Paio, um parque urbano que pretende ser o prolongamento de uma zona verde que acolhe mais de 200 espécies de aves. Esta é uma posição também defendida pelo Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens (Fapas).

A localização do festival tem vindo a ser contestada ao longo dos últimos anos, pelo que esta carta lembra ao presidente da Câmara que já em 2017 se assumiram diligências para uma mudança do local do festival em 2018. Contudo, este, tal como vai acontecer este ano, teve lugar na Antiga Seca do Bacalhau, situada “paredes meias com o Vale de São Paio” e em “zona contígua à Reserva, onde é inverosímil que não se façam sentir, pelo menos, alguns dos efeitos graves denunciados durante o diferendo de 2016-17”. Esta é uma posição que continua a ser defendida pela associação. Em 2016, as críticas feitas pela Quercus e outros ambientalistas levaram a que o assunto fosse objecto de queixas-crime entre câmara e activistas.

Contudo, quer o presidente da câmara, quer o presidente da Quercus viram arquivada a acusação de que foram alvo por parte do Ministério Público, na sequência de declarações proferidas por ambos durante os meses que antecederam a edição de 2016 do festival Marés Vivas. Tal não aconteceu ao activista Carlos Evaristo, que foi a julgamento no mês passado por acusação de difamação agravada, especificamente por declarações publicadas no Facebook contra a realização do festival no Vale de Sampaio e contra o próprio executivo camarário.

A Campo Aberto apela agora ao presidente da câmara que “o local [onde se vai realizar o festival] seja definitivamente abandonado e duradouramente substituído” por um outro, uma vez que só assim é que a Reserva Natural, “o património de conservação da natureza mais valioso no concelho, poderá ser efectivamente salvaguardada”.

Quem também apoia esta carta aberta e está solidário com a associação Campo Aberto é o presidente do Fapas, Nuno Oliveira, que revelou ao PÚBLICO que “há valores ambientais muito grandes a defender e que devem ser resguardados, quer em Gaia, quer no Grande Porto”, nomeadamente “do ponto de vista da biodiversidade”. “Toda aquela zona deveria ser devidamente acautelada”, acrescentou. João Branco, ex-presidente e actual tesoureiro da Quercus, admitiu, por sua vez, que “a Quercus considera igualmente que o festival deve ser deslocalizado”.

Contactado pelo PÚBLICO, o presidente da Câmara de Gaia não quis tecer qualquer tipo de comentário, assim como Jorge Lopes, responsável da PEV Entertainment, organizadora do evento.

Texto editado por Ana Fernandes