Velho Meco, novos hábitos

Depois de quatro edições de Super Bock Super Rock no Parque das Nações, em Lisboa, o festival regressou à Herdade do Cabeço da Flauta, no Meco. Em entrevista com os Glockenwise falamos sobre como o festival e a sua audiência mudaram.

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O público que vai ao Super Bock Super Rock está entre os 18 e os 25 anos andreia carvalho

Muita coisa mudou desde 2015: David Bowie e Prince ainda eram vivos, Conan Osiris, que actuou esta quinta-feira no Palco Somersby, era um total anónimo e o Super Bock Super Rock mudava-se da Herdade do Cabeço da Flauta, no Meco, para o Parque das Nações. Agora, em 2019, depois de edições frustrantes em ambiente citadino, o festival regressou ao concelho de Sesimbra numa tentativa de revitalizar o seu espírito.

Os Glockenwise são uma banda de Barcelos e actuaram neste festival em 2011, 2016 e na presente edição, ou seja, acompanharam de perto os avanços e recuos do Super Bock Super Rock. “É de saudar o regresso ao Meco”, elogia Nuno Rodrigues, guitarrista e vocalista da banda, ao PÚBLICO. “Eu percebo que faça mais sentido, do ponto de vista logístico, [o festival] acontecer no Parque das Nações, mas aqui existe uma certa aura festivaleira que se está a diluir”, disse o músico que comparou esta localização com o Paredes de Coura e a forma como “é quase venerado, não só pelo cartaz, mas também pelo espaço.”

Actualmente, a organização de um festival e o seu financiamento é bastante diferente do distante ano em que os Glockenwise se estrearam no Super Bock, evidente pela forma sufocante como as marcas estão presentes na Herdade do Cabeço da Flauta. Há tendas onde se fazem passatempos com speakers que emitem músicas demasiado altas em simultâneo aos concertos, e jovens com T-shirts estampadas de marcas caminham por todo o lado a tentar impingir produtos, mas, por muito incómodo que possa parecer, os membros da banda consideram isto um mal necessário. “É inevitável”, atira Rafael Martins, guitarrista. “Se quiseres fazer um festival deste tamanho e com estes nomes tens de te sujeitar.” E acrescenta: “Um promotor muito conhecido de um festival muito conhecido confessou-me que o cachet de uma banda muito conhecida era um milhão de euros e ele não conseguia fazer isso com as vendas de bilheteira”, diz Nuno Rodrigues. “Isto proporciona que, nas franjas, se criem outro tipo de festivais com cartazes e propostas para lidarem com a concorrência”, remata.

Mas não foi só o festival que mudou (para além da localização, a programação revela um novo paradigma, com uma clara aposta em artistas de hip-hop, como Kendrick Lamar, Future e Travis Scott no passado e este ano com Migos) também os frequentadores e os seus comportamentos já não são os mesmos. “Há coisas que mudaram imenso. Na altura já existiam smartphones ou Instagram, mas não estavam tão difundidos”, recorda Nuno. “Quando acabámos o concerto e saímos do palco, os nossos telemóveis estavam a rebentar com notificações. Essas coisas meta festival são curiosas. Já reparei que as pessoas se vestem e preparam de forma diferente uma vez que estão em constante partilha visual, é o típico comportamento dos influencers. É curioso caminhares por aí e veres a quantidade de pessoas de costas viradas para a música porque estão a tirar fotos.”

Nem os Glockenwise escapam às mudanças: em 2011 apresentavam o seu disco de estreia Building Waves, em 2016 estavam na estrada com o seu terceiro álbum Heat (lançado em 2015) e agora estão a mostrar o seu mais recente projecto, Plástico (quarto da sua discografia editado no ano passado). É também o primeiro cantado na íntegra em português e tem recebido críticas positivas. “Estivemos neste festival em momentos diferentes, musicais e pessoais”, diz Rafael, que acabou por exaltar os benefícios que um festival como este pode trazer para a música e cultura portuguesas. “Estes festivais têm muito impacto nos miúdos. Há muitas pessoas que depois de verem os concertos e descobrirem bandas novas passam a frequentar os espaços culturais que sustentam a cultura durante o ano, que são aquelas salas para cem ou duzentas pessoas. E são essas pessoas que, no final do dia, nos dão de comer.”

Texto editado por Paula Barreiros