Crítica

Uma história muito portuguesa

A relação que a obra de Sarah Affonso estabelece com a iconografia popular minhota está em exposição na Gulbenkian.

Foto
Sem título (camponesa), 1933. Tinta estilográfica sobre papel Lisboa, Museu Calouste Gulbenkian

Sarah Affonso possui, em Portugal, uma imagem ambígua. Por um lado, foi casada com Almada Negreiros, pintor que a historiografia da arte da segunda metade do século XX considerou como um dos maiores de todo esse século. Mas, por outro, foi também ela artista, e desenvolveu uma obra que, embora ancorada no desenho como a do seu marido, adquiriu uma identidade própria, muito diferente daquela que acabou por se colar à produção deste. Se Almada acabou por ser o artista por excelência do regime, assinando as grandes obras de arte pública e de decoração dos edifícios que transformaram a fisionomia da capital entre os anos 1945 e 1970 do século XX — ou seja, desde as gares marítimas até à sede da Gulbenkian —, Sarah Affonso desenvolveu uma pintura moderna, é certo, mas colada a uma imagem de felicidade idílica que adoptara do artesanato português minhoto — até deixar de pintar, por volta de 1940.