Crónica da Vanessa

Glória a Centeno e aos homens com caras de totó

A Vanessa acha que o Centeno tem cara de totó, mas que os tipos com caras de totó são os piores.

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vasco gargalo

– É verdade que o Mário Centeno vai mesmo para o FMI?

– Não sei, Vanessa.

Uma coisa que me chateia nos meus amigos é que a maioria acha que me apetece, em modo contínuo, comentar todas as headlines. Não, não apetece. Às vezes é tão bom estar calada ou falar de tretas sem nexo. É um bocado como os médicos: se todos os amigos lhes falam permanentemente de doenças, têm de mudar de amigos.

– O que é que tens? Fogo, que resposta. Queres que ligue noutra altura?

A Vanessa reagiu mal. Se calhar fui um bocado bruta, mas não me apetecia comentar a possibilidade de o Mário Centeno ir para o FMI. Ela deve ter percebido pelo meu tom de voz lixado que invariavelmente, contra os meus desejos, denuncia tristeza, irritação, inclusivamente acédia. 

– Desculpa, Vanessa. Estava aqui a pensar numa coisa ou duas. Mas sim, parece que o Mário Centeno tem hipóteses de ir para o FMI. Deixa ver como corre. Há ainda alguns nomes sobre a mesa.

– Mas não é maravilhoso o Centeno??!!!! Aquele homem com cara de totó! O mundo é dele, já viste? O gajo manda em toda a gente, manda nos ministros, manda no Costa, manda no BCE… E agora vai mandar no FMI? Fogo, o FMI! Eu da primeira vez que o vi não dei nada por ele. Lembro-me perfeitamente de o ver na televisão há uns anos e o achar um grande totó. Tem cara de totó o gajo, não tem?

– Mais ou menos...

– Mais ou menos.

Uma parte de mim era acédia. E a acédia inviabiliza respostas com convicção, energia, pés e cabeça.

– Desculpa, mas não achas que o Centeno tem mesmo cara de totó?

A Vanessa insistia no seu “ponto”, uma coisa que agora toda a gente diz desde que se generalizou a leitura em inglês. É verdade que Mário Centeno, quando chegou ao grupo de economistas que fez o cenário macroeconómico que serviu de base ao programa eleitoral do PS, tinha aquele ar um bocado “nerd”. E havia ali, também, qualquer coisa ingénua – ele achava, por exemplo, que não se deviam repor as 35 horas nem o Estado devia entrar na TAP. Isso foi antes de perceber a “correlação de forças” – mas foi extraordinário como, mal percebeu a correlação de forças, cedeu para acabar a impor tudo o que era a “basezinha”, que no caso do padre do Eusebiozinho de Os Maias era o latim e para Centeno é o défice zero.

– Não, hoje acho que já não tem cara de totó, respondi eu.

– Tem, tem. Mas sabes que conheci imensos homens com caras de totó que acabaram por se revelar… enfim… não sei agora como dizer.

– Não digas.

– A sério, os tipos com caras de totó são os piores! Deve-se ter imenso cuidado com todos os gajos com caras de totó. Para o melhor e para o pior. Estás a perceber o que eu quero realmente dizer?

– Desculpa, hoje não estou a perceber grande coisa. É da acédia.