Os primeiros mamíferos a ter o osso que nos solta a língua

Cientistas descobriram aquele que será o mais antigo exemplar de um animal que já possuía um osso invulgar, seguro apenas por músculos e ligamentos, que serve para conseguirmos engolir os alimentos.

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O animal teria um corpo com seis centímetros e uma cauda com oito, pesando cinco a nove gramas April Neander/Universidade de Chicago

O Microdocodon gracilis era um pequenino animal que viveu há (pelo menos) 164 milhões de anos. Parecido com um musaranho, um insectívoro solitário semelhante a um rato mas que tem um focinho pontiagudo, este animal representará o exemplo mais antigo na evolução dos mamíferos da presença de ossos hióides. Esta invulgar “peça” do esqueleto, que não se liga directamente a nenhum outro osso e que se encontra na zona do pescoço, debaixo da mandíbula, é essencial para manter a língua solta e para engolir os alimentos. A descoberta do delicado osso num fóssil de Microdocodon gracilis é descrita num artigo na revista Science.

Primeiro, alguma informação básica de anatomia: os ossos hióides ligam a parte posterior da boca, ou faringe, às aberturas do esófago e da laringe. Nos mamíferos modernos, incluindo os humanos, são dispostos em forma de U, e encontram-se ligados a uma parte pontiaguda (processo estilóide) do osso temporal através de músculos e ligamentos. Na complexa máquina que somos, esta peça serve para transportar e engolir alimentos mastigados ou líquidos, uma função que – como é fácil de perceber – é indiscutivelmente importante para a nossa sobrevivência.

Ao contrário de outros animais que são capazes de engolir presas inteiras, os mamíferos devem aos ossos hióides a proeza de conseguir mastigar alimentos e engolir um pequeno pedaço de cada vez. “Os mamíferos tornaram-se muito diversificados através da evolução de diferentes maneiras de mastigar a sua comida, quer se trate de ingerir insectos, vermes, carne ou plantas. Mas não importa as diferentes formas que os mamíferos usam para mastigar, todos eles têm de engolir da mesma maneira”, contextualiza Zhe-Xi Luo, professor de biologia orgânica e anatomia na Universidade de Chicago e autor de um novo estudo sobre o fóssil Microdocodon gracilis.

A peça central neste artigo – os ossos hióides - não é exclusiva dos mamíferos. “Outros vertebrados também têm ossos hióides, mas os seus hióides são simples e semelhantes a bastonetes, sem articulações móveis entre os segmentos. Eles só podem engolir alimentos inteiros ou grandes pedaços”, lê-se num comunicado de imprensa.

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O fóssil foi encontrado na região da China e o animal terá vivido há 164 mihões de anos Universidade de Chicago

Há muito tempo que os paleontólogos tentam perceber quando e como este osso especial surgiu na história da evolução dos mamíferos. O comunicado da Universidade de Chicago conta que, em 2014, Chang-Fu Zhou, do Museu Paleontológico de Liaoning, na China, e o principal autor do novo estudo, encontrou um novo fóssil do Microdocodon preservado “com delicados ossos hióides” no famoso sítio jurássico de Daohugou, no Nordeste da China. Depois, Luo e Thomas Martin, da Universidade de Bona, Alemanha, juntaram-se ao cientista na China para estudar o fóssil.

“É um fóssil lindo e antigo. À primeira vista, fiquei logo impressionado com a excelente preservação daquele minúsculo fóssil. Percebemos que era invulgar, ficamos intrigados e quisemos perceber o que não era comum”, lembra Zhe-Xi Luo. E continua: “Depois de tirar fotografias detalhadas e examinar o fóssil com um microscópio, apercebemo-nos de que este animal jurássico tem pequenos ossos hióides muito semelhantes aos dos mamíferos modernos.”

O Microdocodon é um docodonte, ou seja, faz parte de uma ordem de mamíferos extintos que viveram durante a era Mesozóica. Já se previa que todos os mamíferos, incluindo estes muito antigos, tivessem hióides, contudo sempre foi difícil identificar estes “ossos delicados” em fósseis. “Agora podemos, pela primeira vez, abordar como a função crucial para a deglutição evoluiu entre os primeiros mamíferos do registo fóssil”, refere Zhe-Xi Luo, defendendo que “os pequenos hióides do Microdocodon são um grande marco para interpretar a evolução da forma de alimentação nos mamíferos.”

A história da pequena e antiga criatura com ossos delicados não ficou por aqui. Os cientistas queriam também perceber como este minúsculo mamífero viveu e obter mais informação sobre a evolução dos mamíferos em geral. “Os hióides e os ossos do ouvido são todos derivados da boca primordial dos vertebrados e do esqueleto das guelras, com os quais nossos primeiros ancestrais parecidos com peixes se alimentavam e respiravam”, refere o comunicado. “O hióide articulado e móvel do Microdocodon coexiste com um ouvido médio arcaico – ainda preso à mandíbula inferior. Portanto, a construção do mamífero moderno implicou a adaptação de um sistema verdadeiramente antigo”, refere Bhart-Anjan Bhullar, outros dos autores do artigo que actualmente trabalha na Universidade de Yale.

Para nos ajudar a reconstituir uma imagem desta antiga criatura, resta dizer que pesava apenas entre cinco e nove gramas e tinha uma cauda “excepcionalmente longa”. “Os ossos dos seus membros são finos como um fósforo e, no entanto, esse minúsculo mamífero do Mesozóico tinha uma vida activa nas árvores”, notam os autores do artigo que adiantam ainda que estes animais coexistiram com outros docodontes do período jurássico, como o semi-aquático Castorocauda, o subterrâneo Docofossor ou o roedor de árvores conhecido como Agilodocodon. Animais que, apesar de estranhos e extintos, estarão sempre de alguma forma, mais ou menos evidente, ligados aos humanos.