Entrevista

“O excesso de trabalho pode estar associado a uma morte súbita”

O médico psiquiatra Pedro Afonso, professor auxiliar na Faculdade de Medicina de Lisboa, recusa comentar as mortes de professores que a Fenprof quer ver investigadas, mas confirma que as mortes por exaustão são uma realidade há muito conhecida no Japão, por exemplo, onde até existe uma palavra para as designar: karochi.

Pedro Afonso vem alertando há muito para a necessidade de as pessoas trabalharem menos horas
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Pedro Afonso vem alertando há muito para a necessidade de as pessoas trabalharem menos horas Daniel Rocha

No dia em que a Federação Nacional de Professores enviou à Procuradoria-Geral da República um pedido de apuramento das causas da morte de quatro docentes que morreram “no pleno exercício de actividade profissional”, recordando que “mais de metade dos professores em exercício sente um stress laboral elevado", o PÚBLICO falou com o médico psiquiatra Pedro Afonso, professor auxiliar na Faculdade de Medicina de Lisboa.

Pode morrer-se de exaustão?
Não vou comentar estas notícias em torno dos professores, porque é um assunto muito delicado e que necessita de ser devidamente esclarecido pelas autoridades. O que posso dizer é que se começou a falar das mortes por excesso de trabalho no final dos anos 60, no Japão, onde o fenómeno, pela sua dimensão, até ganhou um nome: karoschi. Este termo significa "morte por excesso de trabalho”. Um dos primeiros casos reportados foi o da morte de um jovem que trabalhava numa tipografia e que morreu de forma súbita, com um ataque cardíaco, aos 29 anos.

A partir dos anos 70 começaram a ser reportados vários casos nas revistas médicas de mortes súbitas em trabalhadores de meia-idade, devido a doenças cardiovasculares (por exemplo, enfarte agudo do miocárdio, ruptura da aorta, AVC), que foram inicialmente desvalorizados, mas que, mais tarde, em 1987, levaram mesmo o ministério do Trabalho japonês a registar separadamente estes casos como mortes por excesso de trabalho. No caso do Japão, esta sobrecarga de trabalho está relacionada com questões culturais e tornou-se muito visível após a Segunda Guerra Mundial, em que houve toda a reconstrução do país e era comum praticarem-se longas jornadas laborais.

Após os relatos de várias mortes associadas ao excesso de trabalho grandes companhias japonesas, como a Nissan e a Toyota, fizeram códigos de ética que visaram, por exemplo, obrigar os trabalhadores a gozar férias e a limitar as horas extraordinárias. Isto aconteceu após alguma pressão, já que o fenómeno passou a ser conhecido pela comunidade médica internacional.

Mas é possível estabelecer um nexo causal entre a morte e o excesso de trabalho?
Existem casos clínicos descritos na literatura há muitos anos e os médicos japoneses que foram fazer estudos retrospectivos até procuraram estabelecer um denominador comum ao nível das horas de trabalho por ano. Verificou-se que muitos dos casos reportados trabalhavam mais de três mil horas anuais.

Foi possível estabelecer uma relação entre estas mortes e o excesso de trabalho, tendo-se observado que o excesso de carga horária estava associado a graves riscos de surgirem estes casos de morte súbita em indivíduos previamente saudáveis. Este assunto já foi bastante debatido e existem dados publicados já há alguns anos. Por exemplo, entre 1974 e 1990 foram reportados 203 casos de morte por karoschi no Japão.

E consegue-se isolar o “factor trabalho” de eventuais complicações familiares ou de condições de saúde prévia não diagnosticadas?
Algumas vezes são pessoas que até têm factores de risco não diagnosticados, mas que no decurso de uma vida normal não veriam manifestações dessa doença. Porém, sujeitas a um esforço físico ou mental muito grande, podem vir a sofrer as consequências disso, nomeadamente sofrendo acidentes cardiovasculares que nalguns casos podem ser fatais. De qualquer modo, é preciso referir que, de facto, o excesso de trabalho nalguns casos pode estar associado a uma morte súbita em pessoas saudáveis ou sem doença prévia conhecida.

No Japão, o assunto voltou à actualidade em 2017 com o caso de uma jornalista japonesa de 31 anos que morreu depois de ter estado a trabalhar consecutivamente [no mês anterior à sua morte, tinha tirado apenas duas folgas, além de ter trabalhado 159 horas a mais].