Rússia oferece caças à Turquia, depois de os EUA sancionarem Ancara

Donald Trump vetou a participação turca no programa dos caças furtivos F-35, depois de este país da NATO ter comprado o sistema de mísseis russo S-400. Moscovo, atenta, aproveitou para tentar aprofundar as relações comerciais e militares com o país de Erdogan.

A oferta russa foi feito depois de Washington recuar na venda dos caças furtivos F-35
Foto
Caça F35, desenvolvido para países da NATO: deixar de ter acesso a estes aviões será um golpe para a aeronáutica turca Chad Bellay/Lockheed Martin

A Rússia não perdeu tempo a aproveitar o crescente fosso entre os Estados Unidos e a Turquia ao anunciar estar disponível para vender a Ancara caças Sukhoi Su-35 se esta o desejar. A disponibilidade surge um dia depois de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter vetado a venda e expulsado o aliado da NATO do programa dos caças furtivos F-35.

“Se os nossos parceiros turcos expressarem esse desejo, estamos preparados para trabalhar na entrega de Su-35”, garantiu o presidente da empresa estatal russa Rostec, Sergei Chemezov, citado pela Associated Press.

O Su-35 é o concorrente directo do mais recente caça norte-americano e tem sido adquirido por outros países, entre os quais a China (24) e a Indonésia (11), pelo seu desempenho em conflitos. Por exemplo, o caça russo teve um importante papel na guerra civil síria, ao apoiar o avanço das forças do regime de Bashar al-Assad.

Na quarta-feira, Trump vetou a venda de 100 caças F-35, produzidos pela Lockheed Martin, por entender que a compra do sistema antimíssil russo S-400 pela Turquia é incompatível com a aquisição dos aviões furtivos usados por Estados-membros da NATO. “Infelizmente, a decisão da Turquia em comprar o sistema antimíssil russo S-400 torna o seu envolvimento nos F-35 impossível”, disse em comunicado a porta-voz da Casa Branca Stephanie Grisham.

Há meses que Washington tentava impedir a compra do S-400 russo pela Turquia, mas quando, na sexta-feira passada, as suas primeiras peças chegaram à base militar de Murted, a noroeste da capital turca, tudo mudou. Fez avisos e ultimatos a Ancara e chegou a suspender a Turquia do programa dos F-35, mas sem efeito. 

Ancara mostrou-se desagrada com a decisão norte-americana. O ministério dos Negócios Estrangeiros apelou aos Estados Unidos para que corrija “o erro” de afastar a Turquia do programa dos F-35, pois isso causará “feridas irreparáveis” nas “relações estratégicas”, diz um comunicado citado pelo jornal turco Hurriyet. E um porta-voz de Erdogan expressou “desconforto” numa conversa por telefone com o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, segundo a CNN Turk.

Na última cimeira do G20, em Junho, Trump teria garantido ao Presidente Recep Tayyp Erdogan que a Turquia não estava a ser bem tratada e que não ia avançar com retaliações, contradizendo o ultimato feito nesse mesmo mês. “Criou a expectativa de que impediria o embargo aos F-35, mas Trump acabou por ceder à forte pressão interna”, comentou ao site da Voice of America Huseyin Bagci, professor na Universidade Técnica do Médio Oriente, com sede em Ancara.

A suspensão da venda dos F-35 é um duro golpe para Ancara. A sua indústria aeronáutica é muito dependente dos contratos de fornecimento de 937 componentes do caça no valor de 12 mil milhões de dólares, segundo a Foreign Policy. Além disso, Erdogan contava reformar a frota da Força Aérea turca, composta por F-16 de fabrico norte-americano, e dos quais muitos já têm décadas de serviço.

O chefe de Estado turco não tem alternativa senão procurar a aquisição de caças com capacidades semelhantes noutros países, o que pode representar um realinhamento das alianças regionais no Médio Oriente. “A Turquia vai provavelmente olhar para os recentes caças da China e Rússia, o que vai alienar ainda mais o Ocidente e empurrar a Turquia para o Oriente”, disse Bagci.