Mulheres que saem, adolescentes que chegam: Gossip Girl vai voltar, She’s Gotta Have It cancelada

Reboot da série dos anos 2000 e fim do projecto de Spike Lee são novos sintomas das mudanças nos serviços de streaming.

,Relação Blair-Serena
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Gossip Girl
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She's Gotta Have It

Duas temporadas depois, a série She’s Gotta Have It, criada e realizada por Spike Lee e sobre uma mulher de Brooklyn, foi cancelada pela Netflix. E sete anos depois do final de Gossip Girl, uma série sobre adolescentes privilegiados de Manhattan, a série vai regressar pela mão dos seus autores originais para alimentar um novo serviço de streaming, a HBO Max.

A nova plataforma da HBO agitou as águas do streaming na semana passada quando passou a ser a nova casa de Friends, série que se reapresentou a novas gerações com um sucesso massivo na Netflix. (A marca está presente no mercado nacional através da chancela HBO Portugal, que já é um agregador de conteúdos WarnerMedia ou da televisão britânica e onde Friends chegou antes mesmo do anúncio para o mercado americano.)

A HBO Max é o resultado de mais uma megafusão no mercado americano (a compra do grupo TimeWarner pela operadora AT&T, que já detinha a NBC onde Friends originalmente se estreou) e se já tem uma arma maciça do passado em Friends quer lançar-se na Primavera de 2020 com séries originais baseadas em títulos já existentes como Dune: The Sisterhood ou Gremlins: Secrets of the Mogwai e, agora, com uma das mais populares marcas adolescentes da última década — Gossip Girl. Ao mesmo tempo, a Netflix continua a sua selecção de títulos que vão ou não continuar numa altura em que o número de novos subscritores está em queda e cancelou a série criada por Spike Lee também passada em Nova Iorque — outra Nova Iorque.

Gossip Girl, a história de Serena e Blair, ou a loira e a morena Blake Lively e Leighton Meester, esteve no ar entre 2007 e 2012 e agregou uma legião de fãs no canal americano The CW (em Portugal passava no então canal Sony, actual marca AXN). Agora, com as carreiras dos protagonistas de uma história de privilégio e classe no Upper East Side de Manhattan já lançadas na TV e no cinema, o showrunner Joshua Safran anunciou que está a trabalhar num “novo olhar sobre esta sociedade particular de Nova Iorque, sob a ideia de que [essa sociedade] está em constante mudança”. Josh Schwartz e Stephanie Savage, os autores da série e showrunners da sua fase inicial, vão ser produtores executivos da nova série.

Safran contou à revista Hollywood Reporter que a série vai ter 10 episódios e perfilou-a como um reboot, passado oito anos depois do final de Gossip Girl. Não comentou se os actores e personagens das temporadas originais vão regressar, nem revelou o novo título. “Uma nova geração de adolescentes de colégios privados de Nova Iorque são apresentados à vigilância social de Gossip Girl”, diz a descrição oficial do reboot, referindo-se à figura misteriosa e titular da série cujas informações e mexericos alimentavam a intriga noveleira. A série vai focar-se nas mudanças “das redes sociais e da própria paisagem de Nova Iorque” nos últimos anos.

A paisagem de outra Nova Iorque é precisamente a de She’s Gotta Have It, onde não são as bandoletes e as pérolas dos milionários mas sim a Brooklyn gentrificada e a vida liberta da artista negra Nola Darling (DeWanda Wise) o centro da história. Título herdado do filme seminal de Spike Lee de 1986, chegou à Netflix em 2017, para depois ter segunda temporada em 2019. A série integrou a fase de afirmação da plataforma de streaming na criação de originais alimentados por nomes de prestígio e como fonte de diversidade, capitalizando o factor Spike Lee a par do apreço da crítica. Porém, esta fase chegou ao fim — mas a série não. Spike Lee, escreve a Hollywood Reporter, vai levar a série a outros canais na expectactiva de a ver continuar.

“Spike Lee é um dos maiores cineastas de todos os tempos e estamos muito contentes que tenha trazido She’s Gotta Have It à Netflix”, disse o presidente para os conteúdos da Netflix, Ted Sarandos, em comunicado enviado à revista Variety — nota onde recorda que Lee continuará a trabalhar com a plataforma, nomeadamente com o filme Da 5 Bloods.

A Netflix vive um momento de reorganização do seu catálogo depois de uma fase de profusa encomenda, aquisição e produção de originais nos vários géneros audiovisuais. Este ano cancelou já One Day at a Time, Santa Clarita Diet ou American Vandal. Esta semana, os seus resultados do segundo trimestre revelaram uma (prevista) quebra no número de novos subscritores e a primeira perda de assinantes nos EUA, além de ter conseguido menos dois milhões de clientes no mercado internacional do que o projectado. Na quarta-feira, a Netflix revelou selectivamente alguns dados não auditados de audiências: o filme Always Be My Maybe, com Ali Wong, Randall Park e Keanu Reeves foi visto por 32 milhões de contas, a mini-série When They See Us, de Ava DuVernay, foi vista por 25 milhões de contas, por exemplo.

A Netflix é o serviço de streaming mais popular do mundo e só no final de Junho lançou os seus títulos mais cobiçados, como Stranger Things ou Dark. Enfrentará no final do ano e em 2020 a concorrência de novas marcas no mercado do streaming, como Disney+ ou a Apple TV Plus, bem como a HBO Max.