Crítica

A guerra do trono

Em 1985, Kurosawa filmou uma versão sui generis do Rei Lear de Shakespeare. Agora em cópia restaurada, Ran confirma-se como obra maior de uma carreira que não foi parca em clássicos.

<i>Ran</i> recebe, na versão projectada em 4K digital, o reconhecimento definitivo como um dos filmes maiores de Kurosawa
Fotogaleria
Ran recebe, na versão projectada em 4K digital, o reconhecimento definitivo como um dos filmes maiores de Kurosawa
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

Raros são os filmes que, não sendo os últimos, respiram tanto um perfil de testamento como este Ran. Em rigor, Akira Kurosawa (1910-1998) ainda faria mais três filmes depois: Sonhos (1990), Rapsódia em Agosto (1991) e Ainda Não! (1993). Nenhum deles, contudo, tem o “peso”, a gravitas da história do senhor Hidetora, que tinha três filhos e lhes entregou as chaves do reino — e também da destruição do que tanto sangue tinha custado a ganhar. Um velho que vê o mundo a mudar e, julgando poder evitar a dissolução do reino, acaba por acelerá-la enquanto ganha consciência da transitoriedade do poder.