Ex-chefe da secreta alemã partilha publicação de extrema-direita no Twitter

Hans-Georg Maassen, que foi afastado em 2018 por colocar em causa a veracidade de um vídeo de agressões perpetradas por neonazis, vem agora partilhar um artigo a acusar a televisão pública alemã de encenar o resgate de refugiados no Mediterrâneo.

,Escritório Federal para a Proteção da Constituição
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Hans-Georg Maassen, antigo chefe dos serviços de espionagem interna da Alemanha LUSA/FELIPE TRUEBA

O antigo chefe dos serviços de espionagem interna da Alemanha (BfV), Hans-Georg Maassen, partilhou na rede social Twitter um artigo proveniente de um blogue de extrema-direita. O texto reproduzido por Maassen no domingo descrevia o salvamento de pessoas a bordo de uma pequena embarcação na costa líbia como uma “peça de propaganda” orquestrada pela emissora pública ARD.

Na mensagem, que entretanto foi apagada da página de Twitter de Hans-Georg Maassen, o antigo chefe da espionagem doméstica germânica equiparava o trabalho da televisão alemã ao da máquina de propaganda nazi e insinuava que os jornalistas teriam encenado o momento, colocando migrantes no mar para filmar o salvamento de seguida.

Em 2018, Maassen foi afastado da chefia da secreta alemã por ter desvalorizado uma onda de violência de extrema-direita na cidade de Chemnitz, ao colocar em causa a autenticidade de um vídeo em que militantes extremistas perseguiam e agrediam pessoas de aparência estrangeira naquela localidade. Acabaria por assumir um alto cargo no ministério do Interior alemão mas, poucos meses após a nomeação, críticas dirigidas ao próprio Governo proferidas num encontro do chamado “clube de Berna”, que junta os líderes dos líderes das secretas internas de vários países europeus, valeram o seu afastamento definitivo.

O blogue em que surgiu o texto partilhado por Maassen é gerido por um dos co-fundadores do agora extinto Die Freiheit, um pequeno partido de extrema-direita que foi monitorizado pela BfV, precisamente a organização que o antigo responsável de segurança dirigia até 2018. Uma das responsabilidades de Maassen era precisamente a de alertar o público para os perigos das notícias falsas e de outras peças de desinformação que circulam pela Internet. Uma contradição que deixa preocupada Claudia Roth, dirigente dos Verdes e vice-presidente do parlamento alemão.

“Quanto há um antigo líder dos serviços secretos internos a citar órgãos de comunicação cujo modelo de negócio consiste em espalhar mentiras óbvias e propaganda de extrema-direita, isso é mais do que alarmante”, disse a vice-presidente do Bundestag, citada pelo jornal britânico The Guardian.

Em Junho, após o assassínio a tiro de Walter Lübcke, membro da CDU e simpatizante do acolhimento de refugiados, a chanceler alemã, Angela Merkel, defendeu um combate aos neonazis “sem qualquer tabu”. Na altura, vários responsáveis políticos questionaram se os serviços secretos germânicos estariam a negligenciar a monitorização do risco representado por redes extremistas de direita no país.

Apesar de já não desempenhar qualquer cargo de destaque, Maassen continua a ser militante da CDU, partido de Angela Merkel, e é um apoiante assumido da Werterunion, uma corrente interna da CDU que se declara contrária às políticas migratórias da chefe de Governo.

Ao Guardian, uma porta-voz deste grupo confirmou que a conta de Twitter onde foi partilhado o artigo de extrema-direita pertencia de facto a Maassen, mas negou que este tenha declarado apoio ao teor do texto, referindo que o antigo responsável da secreta escreveu “caso isto seja verdade” — ou seja, que “mostrou claramente que a sua veracidade não tinha sido confirmada”.