Reportagem

O que fazem a comédia e o fado num festival de Verão?

Há muita gente céptica e a olhar de soslaio para a inclusão do Palco Comédia e do EDP Fado Café no Nos Alive. Falámos com os organizadores para perceber ao que vêm.

Matthieu Chedid
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Nilton lotou o Palco Comédia no último dia do festival Andreia Gomes Carvalho
,Concerto de rock
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Carlos Vidal no Palco Comédia Andreia Gomes Carvalho
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Carlos Vidal no Palco Comédia Andreia Gomes Carvalho

“O meu trabalho aqui é muito fácil, se é que lhe posso chamar sequer trabalho: a maior parte do tempo é só um grande prazer”. Nuno Duarte, mais conhecido por Jel, homem por trás do megafone dos Homens da Luta, é curador do Palco Comédia do Nos Alive desde que ele foi introduzido no festival, em 2014.

“Sou amigo do Álvaro Covões [promotor do festival], e ele era fã do meu trabalho. Eu já tinha tocado no palco principal com os Kalashnikov, em 2008, e fomos responsáveis pela criação do Palco Coreto, na altura para tocar com os Homens da Luta. Fui-o espicaçando para o Alive ter uma tenda só dedicada à comédia, tal como os grandes festivais de música estrangeiros, como Glastonbury”, explica Jel. “Achei que era uma boa altura, porque tinham começado a surgir inúmeros talentos e a consumir-se cada vez mais comédia; felizmente tinha razão”, reclama.

Apesar de muitas pessoas ainda olharem com alguma estranheza para a inserção de comédia num festival de música, a verdade é que este palco tem tido cada vez mais visitantes ao longo dos anos. A actuação de Nilton no sábado, último dia do festival, por exemplo, juntou espectadores numa tenda sobrelotada, naquela que foi visivelmente a maior enchente deste ano naquele palco.

Jel considera este cepticismo normal. No entanto, considera que os dois géneros “casam bem juntos”, e acredita que o futuro dos festivais está precisamente na junção de diferentes expressões artísticas: música, teatro, cinema, artes plásticas… “Cada vez mais, as pessoas que vêm aos festivais querem ver coisas que nunca viram antes”, diz o programador.

Na mesma linha, elogia o trabalho de Odeith, artista plástico de Lisboa, que criou uma instalação para o Palco Comédia inspirada na civilização egípcia. “Temos convidado artistas plásticos para criarem os nossos palcos; no ano passado foi o Bordalo 2. Acreditamos que conjuga muito bem com a comédia, que, por vezes, conta com actuações em palcos muito despidos.”

Esta é a primeira experiência de Jel como curador e, apesar de gostar do cargo, garante que não o utiliza para satisfazer os seus caprichos: “O meu objectivo é dar a conhecer todo o tipo de comédia que é feito em Portugal, desde um estilo mais elitista e intelectual a estilos mais populares, dos comediantes mais novos aos mais velhos.”

Questionado pelo PÚBLICO sobre qual o comediante gostaria de trazer a este palco no futuro, o nome surgiu sem demora: “O Ricardo Araújo Pereira. Ele esteve aqui na quinta-feira, a beber uns copos, e perguntei-lhe quando é que vinha. Respondeu-me: ‘Se tudo correr bem, nunca’.”

No último dia do Nos Alive, actuaram no Palco Comédia os Ena Pá 2000, Nilton, Hugo Sousa, Carlos Vidal, Catarina Matos e Ricardo Cardoso. Este jovem humorista teve a difícil tarefa de aquecer a audiência para o resto dos artistas, e sublinhou a importância deste palco para proporcionar uma audiência mais alargada aos nomes da comédia nacional. “Como fã de humor, acho que este palco está cada vez melhor e mais profissional, trazendo cada vez mais humoristas e oferecendo melhores condições para as suas actuações”, disse ao PÚBLICO.

O fado também tem lugar

O EDP Fado Café, por sua vez, foi introduzido no Nos Alive em 2017. Este sábado, Márcia e Fábia Rebordão foram as atracções deste palco, que contou, nos dias anteriores, com actuações de Camané, Tiago Nacarato, Cristina Branco e Francisco Salvação Barreto. Para além destes nomes, o projecto Variações, tributo a António Variações (1944-1984), com Sérgio Praia, actor que interpreta o papel do icónico músico no seu filme homónimo a estrear-se a 22 de Agosto, marcou presença todos os dias.

PÚBLICO - Fábia Rebordão no palco EDP Fado Café
Fábia Rebordão no palco EDP Fado Café ANDREIA GOMES CARVALHO
PÚBLICO - Fábia Rebordão no palco EDP Fado Café,Fábia Rebordão no palco EDP Fado Café
Fábia Rebordão no palco EDP Fado Café,Fábia Rebordão no palco EDP Fado Café ANDREIA GOMES CARVALHO,ANDREIA GOMES CARVALHO
PÚBLICO - O projecto <i>Variações</i>, protagonizado por Sérgio Praia, teve lugar cativo no palco EDP Fado Café nas três noites do festival
O projecto Variações, protagonizado por Sérgio Praia, teve lugar cativo no palco EDP Fado Café nas três noites do festival ANDREIA GOMES CARVALHO
PÚBLICO - O projecto <i>Variações</i>, protagonizado por Sérgio Praia, teve lugar cativo no palco EDP Fado Café nas três noites do festival
O projecto Variações, protagonizado por Sérgio Praia, teve lugar cativo no palco EDP Fado Café nas três noites do festival ANDREIA GOMES CARVALHO
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ANDREIA GOMES CARVALHO

O palco, que se situa dentro do recinto na Rua EDP, inspirada numa rua real, era um “sonho antigo” de Álvaro Covões, um apaixonado pelo fado, que tentou elevar este género musical a “artista principal” deste espaço e apresentar nomes conceituados ou que estão a emergir neste nicho. “Tentamos oferecer o máximo de entretenimento possível para as pessoas que vêm ao nosso festival”, explicou o director da promotora de espectáculos Everything Is New.

A pequena sala esteve quase sempre lotada, tanto por portugueses como por turistas estrangeiros desejosos de descobrir mais sobre este Património Imaterial da Humanidade. Por mais do que uma vez, muitas pessoas que não conseguiram lugar dentro do café tiveram de se amontoar junto à porta e às janelas para ter um vislumbre do que estava a acontecer.